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Trump ameaça implodir Hollywood e coloca indústria do cinema em alerta

Redação Culturize-se

Em uma medida que abalou Hollywood e além, Donald Trump anunciou planos para impor uma tarifa de 100% sobre todos os filmes produzidos no exterior que entrem nos Estados Unidos, declarando tratar-se de uma ameaça à segurança nacional e uma necessidade econômica para reviver a produção cinematográfica americana. O anúncio, feito por meio de sua plataforma Truth Social, desencadeou pânico, confusão e forte reação negativa de estúdios, produtores e polos internacionais de cinema que dependem das produções de Hollywood.

Uma indústria moribunda ou teatro político?

Trump apresentou sua decisão como uma defesa contra nações estrangeiras que estariam “roubando” a indústria cinematográfica americana por meio de incentivos fiscais lucrativos. “Hollywood está sendo destruída”, afirmou, culpando tanto concorrentes internacionais quanto o governador da Califórnia, Gavin Newsom, por falharem em proteger a produção doméstica. Sua retórica ecoa preocupações antigas sobre a fuga de produções, com estados como Geórgia e Nova York lutando para competir com o Reino Unido, Canadá, Austrália e Europa Oriental, onde subsídios generosos e custos trabalhistas mais baixos atraíram superproduções.

No entanto, críticos veem a medida como politicamente motivada, apontando para a estratégia mais ampla de guerra comercial de Trump e seu histórico de usar tarifas como instrumento de barganha. O gabinete de Newsom classificou a proposta como uma “distração”, enquanto especialistas da indústria questionaram se a política seria sequer aplicável — ou apenas mais uma manobra para gerar manchetes.

Se implementada, a tarifa poderia causar estragos em franquias de grande porte que dependem de filmagens no exterior:

  • “Missão Impossível: Acerto Final” (filmado em diversos países, incluindo o Reino Unido)
  • “Avatar: Fogo e Cinzas” (filmado na Nova Zelândia)
  • “Vingadores: Doomsday” (atualmente sendo filmado em Londres)
  • “Supergirl: Woman of Tomorrow” (produção da DC Studios/Warner Bros. no Reino Unido)

Esses filmes enfrentariam penalidades retroativas? Gigantes do streaming como a Netflix, que prospera com conteúdo internacional (como “Round 6” e “The Crown”), seriam forçados a retirar títulos estrangeiros ou pagar taxas altíssimas? A falta de clareza deixou os estúdios em polvorosa.

O elenco de “Vingadores: Doomsday” celebra o início das filmagens em Londres | Foto: Divulgação

Reação global: “Isso não faz sentido”

Produtores europeus ficaram perplexos, argumentando que filmes americanos icônicos — de “Gladiador” a “O Senhor dos Anéis” — foram rodados no exterior por razões criativas e financeiras. Um produtor britânico classificou a ideia como “absurda”, observando que forçar “Harry Potter” ou “A Lista de Schindler” a serem filmados nos EUA teria sido impossível. Outros alertaram sobre tarifas retaliatórias, que poderiam paralisar os ganhos de Hollywood no exterior — uma fonte de receita crucial enquanto a indústria ainda se recupera das quedas pós-pandemia.

A indústria cinematográfica da França, um grande mercado para o conteúdo americano, questionou a legalidade de taxar “serviços” e propriedades intelectuais em vez de bens e produtos. Enquanto isso, os estúdios Cinecittà da Itália — que devem sediar a sequência de “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson — enfatizaram diplomaticamente a importância do intercâmbio cultural que define a produção cinematográfica global.

Embora Trump insista que a tarifa irá “trazer os filmes de volta para a América”, os céticos argumentam que a medida pode ter efeito contrário:

  • Custos mais altos: Sem incentivos fiscais equivalentes nos EUA, filmagens domésticas permanecem 30 a 40% mais caras — o que provavelmente levará a orçamentos menores, maior dependência de CGI ou menos filmes independentes.
  • Retaliação global: Se a Europa impuser tarifas semelhantes, o mercado de exportação de US$ 14,5 bilhões de Hollywood pode desmoronar.
  • Caos na pós-produção: Empresas como a Weta FX, da Nova Zelândia, e a Framestore, de Londres — essenciais para superproduções — podem ser penalizadas, interrompendo fluxos de trabalho de VFX e edição.
  • Colapso de coproduções: Filmes independentes como “O Brutalista” (uma coprodução Hungria/Reino Unido/EUA) dependem de financiamento internacional. Tarifas podem aniquilar esses acordos.

O homem que tem os ouvidos de Trump

Um dos “embaixadores especiais” escolhidos por Donald Trump para Hollywood quebrou o silêncio — e afirma ter um plano para trazer de volta às terras americanas as produções que fugiram para o exterior.

Após semanas de especulação sobre seu papel como ponte entre Hollywood e a Casa Branca, Jon Voight revelou nesta segunda-feira (5) uma proposta que, segundo ele, pode reverter o êxodo de filmes e séries para países com custos mais baixos. O plano, divulgado em um comunicado à imprensa, baseia-se em uma combinação de incentivos fiscais federais, reformas tributárias, tratados de coprodução e subsídios para infraestrutura — uma abordagem mais suave do que a ameaça de tarifas de 100% feita por Trump na noite de domingo (4).

Embora “tarifas em certos casos limitados” tenham sido mencionadas, a visão de Voight parece depender mais de incentivos do que de punições, sugerindo uma possível divergência tática entre o ator e o discurso mais agressivo do presidente sobre comércio exterior.

“O presidente ama o entretenimento e este país, e ele nos ajudará a tornar Hollywood grande novamente”, declarou Voight, ecoando o slogan de campanha de Trump. “Estamos ansiosos para trabalhar com o governo, sindicatos, estúdios e plataformas de streaming para criar um plano que mantenha nossa indústria saudável e traga mais produções de volta aos EUA.”

O anúncio confirmou que Voight e seu sócio, Steven Paul, reuniram-se com Trump em Mar-a-Lago no fim de semana, e que a Casa Branca está “avaliando” suas propostas. No entanto, os detalhes permanecem frustrantemente vagos — sem valores específicos, incentivos claros ou explicação sobre como isso se alinharia com a ameaça tarifária de Trump.

Um Ato de Equilíbrio Diplomático?

John Voight dança em coletiva à imprensa com Trump ao fundo | Foto: Reprodução/Los Angeles Times

O tom conciliador de Voight contrasta com o pânico generalizado causado pela postagem de Trump no Truth Social. Enquanto o plano de Voight reconhece o instinto protecionista do presidente, ele também parece tranquilizar os executivos de Hollywood, que há décadas dependem de benefícios fiscais no exterior — de Londres a Budapeste — para controlar orçamentos.

Mas será que Voight, um conservador assumido em uma indústria majoritariamente liberal, pode realmente intermediar um acordo? Os grandes nomes de Hollywood há anos pressionam por incentivos federais para competir com Canadá e Reino Unido, mas o Congresso nunca aprovou. E, com a ameaça de tarifas de Trump no horizonte, muitos executivos estão menos interessados em medidas paliativas e mais preocupados com a possibilidade de seus próximos blockbusters dobrarem de custo.

O que vem a seguir?

Sem um mecanismo claro de aplicação, a proposta permanece em suspenso. Alguns preveem uma versão atenuada, semelhante às tarifas pausadas de Trump sobre outros produtos. Outros temem uma guerra comercial que pode isolar o cinema americano. Fato é que a jogada de Trump, seja blefe ou a insanidade que parece, pode implodir Hollywood.

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