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Como "Yellowstone" forjou o reinado de Taylor Sheridan

Reinaldo Culturize-se

Taylor Sheridan esteve perto de abandonar “Yellowstone”, maior sucesso da década da TV americana. O criador, roteirista e produtor enfrentou uma batalha árdua para colocar a série no ar. Inicialmente vendida para a HBO, a produção acabou sendo descartada. Depois, encontrou um lar no Paramount Network, um canal a cabo relativamente obscuro, simplesmente porque ninguém mais a queria. A abordagem de Sheridan — enraizada em sua experiência no cinema independente, com créditos como “Sicario”, “Aqueles Que me Desejam a Morte” e “Terra Selvagem” — não agradava aos executivos da Viacom. Ele se recusava a aceitar sugestões, evitava reuniões e mantinha sua visão criativa, independentemente das pressões corporativas. “Eu considerei seriamente desistir”, relembrou Sheridan em entrevista recente. “Foi um processo muito, muito difícil.”

Hoje, “Yellowstone” é uma das franquias mais lucrativas de Hollywood, gerando US$ 2,9 bilhões em vendas e cerca de US$ 700 milhões em lucro. O público gastou mais de US$ 450 milhões em DVDs e downloads. A Paramount já tem pelo menos três outras séries ambientadas no universo de “Yellowstone”, e Sheridan criou quatro produções adicionais para a empresa. A trajetória da série é um exemplo do famoso ditado de William Goldman sobre Hollywood: “Ninguém sabe de nada.” Também é uma história sobre a parceria singular entre Sheridan, o produtor David Glasser e Chris McCarthy, co-CEO da Paramount.

McCarthy herdou “Yellowstone” em 2019, quando assumiu o Paramount Network (anteriormente Spike TV). Embora “Yellowstone” fosse um sucesso, com média de 6,3 milhões de espectadores na segunda temporada, estava dando um prejuízo de US$ 50 milhões por ano. A Viacom, em meio a uma fusão com a CBS, cogitava cancelar, reduzir ou vender a série. O programa sobreviveu principalmente graças à 101 Studios, empresa de Glasser, apoiada pelo bilionário Ron Burkle, que forneceu financiamento crucial.

No Brasil, antes de ser incorporada ao catálogo do Paramount+, a produção foi exibida no Paramount Network e na MTV, além de integrar o catálogo da Netflix.

McCarthy enxergou um potencial inexplorado. Enquanto a maioria das séries de sucesso começa nas grandes cidades e depois se espalha, “Yellowstone” dominava nas áreas rurais. Se ele conseguisse atrair o público urbano, a série poderia se tornar um fenômeno televisivo. Ele passou um tempo no rancho de Sheridan, no Texas, para construir confiança. Incentivou Sheridan a tornar a série mais grandiosa e mudou o dia de exibição de quartas-feiras no verão para domingos no outono — um horário premium. Sheridan e seus agentes resistiram, temendo a concorrência com o Sunday Night Football. Mas McCarthy acreditava que o público do futebol impulsionaria a audiência e investiu seu orçamento de marketing para atingi-lo.

A aposta deu certo. A terceira temporada ganhou mais de um milhão de novos espectadores, e a quarta ultrapassou 12 milhões, tornando-se a maior série roteirizada da TV. No entanto, ainda havia um problema: a Viacom havia licenciado os direitos de streaming de “Yellowstone”, nos EUA, para a Peacock em 2019. Com o lançamento do Paramount+ se aproximando, a série carro-chefe da empresa não estava disponível na própria plataforma. McCarthy recorreu a Sheridan em busca de ajuda.

Glasser relembra, em depoimento à Bloomberg, de McCarthy perguntando persistentemente como poderiam expandir o universo de “Yellowstone”. Sheridan, que há muito pensava em um prelúdio, foi inspirado após conhecer a atriz Isabel May durante o processo de elenco de “Mayor of Kingstown”. Embora ela não tenha conseguido um papel na série protagonizada por Jeremy Renner, despertou a ideia de “1883”, uma história de amadurecimento nas Grandes Planícies. Sheridan concordou em fazer a série antes mesmo de escrever uma única palavra. Com apenas dois roteiros prontos, McCarthy queria a série entregue em quatro meses. Sheridan chegou a editar os trailers pessoalmente para cumprir o prazo apertado, entregando o episódio final apenas 48 horas antes da estreia.

O mega produtor Taylor Sheridan | Foto: Reprodução/THR

McCarthy confiava no processo de Sheridan, sem interferir nas decisões criativas. “Ele me diz quando precisa que algo vá ao ar, e eu entrego”, explicou Sheridan. “1883” — descrito por Sheridan como um “filme indie de guerrilha de US$ 180 milhões” — foi seguido por “Tulsa King”, com Sylvester Stallone, e depois “1923”, estrelado por Harrison Ford e Helen Mirren. McCarthy aprovou “1923” sem sequer ver um esboço. “Ele me perguntou, ‘O que é 1923?’ Eu disse que não fazia ideia, mas que seria incrível”, relembrou Sheridan.

As séries de Sheridan estão entre as mais caras da televisão, com “1883” e “1923” custando quase US$ 20 milhões por episódio. Ainda assim, cada produção foi um sucesso, impulsionando o crescimento acelerado do Paramount+ como serviço de streaming. Embora “Yellowstone” tenha terminado antes do planejado devido a conflitos com Kevin Costner, o universo está longe de acabar. Projetos futuros incluem “Dutton Ranch”, com Kelly Reilly e Cole Hauser, que estreia neste outono no Paramount Network, e uma série sobre Kayce Dutton, prevista para a CBS em 2026. Ambas estarão disponíveis no Paramount+, junto com mais dois spin-offs: “The Madison”, estrelado por Michelle Pfeiffer, e “1944”, outro prelúdio.

Apesar do envolvimento profundo de McCarthy na construção do “Sheridan-verse”, seu próprio futuro é incerto. É improvável que permaneça na Paramount após a fusão com a Skydance Media. Sheridan, insinuando desconforto com a nova liderança, já afirmou que não consegue imaginar continuar as séries sem McCarthy. Seu contrato com a Paramount ainda tem alguns anos restantes, mas outros estúdios e plataformas de streaming já estão se movimentando para tentar atraí-lo.

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