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"Havoc" recorre a clichês para viabilizar vistoso balé de balas

Redação Culturize-se

Falar sobre atores como Tom Hardy muitas vezes corre o risco de cair em uma condescendência similar àquela dos primeiros antropólogos que mal interpretavam culturas “primitivas”. Alguns dos intérpretes fisicamente mais talentosos, de Marlon Brando ao próprio Hardy, são frequentemente rotulados como instintivos, e não intelectuais. Hardy, chamado de “o novo Brando” pela Vogue e pela Variety, eleva quase tudo de que participa — e isso certamente se confirma em “Havoc”, filme do diretor Gareth Evans para a Netflix. Embora Evans traga seu estilo maximalista de ação característico, ele luta para manter a narrativa coesa, criando um filme que oscila entre o deslumbrante e o confuso.

Evans, mais conhecido pela energia visceral da série “The Raid”, dirige “Havoc” com a mesma intensidade implacável. Aqui, no entanto, o foco recai muito mais sobre tiroteios do que combates corporais. O resultado é uma sobrecarga sensorial: torrentes intermináveis de balas transformam a trilha sonora em uma parede de ruído, e as cenas são tão hiperbolicamente violentas que, por vezes, beiram a comédia involuntária. Essa violência extrema levanta uma questão central: quão prazeroso pode ser um espetáculo de brutalidade incessante?

No centro de “Havoc” está Walker, interpretado por Hardy, um detetive de homicídios divorciado e desiludido, apresentado enquanto compra presentes de Natal em um posto de gasolina decadente. As cenas iniciais o pintam como uma figura derrotada, ridicularizada até mesmo pelo caixa do posto. Hardy constrói Walker como um personagem solitário mergulhado em autodesprezo, duro, mas visto com desprezo por colegas que o consideram um capanga do prefeito corrupto. Sua atuação carrega uma tensão explosiva, mas também momentos de humor e cansaço, conferindo a Walker uma profundidade surpreendente — profundidade essa que o roteiro frequentemente não sustenta.

A trama, tênue e frequentemente contraditória, gira em torno da participação de Walker no massacre de uma gangue de tríades. Charlie (Justin Cornwell), filho afastado do prefeito, está implicado, e Walker, atuando como “faxineiro” para o político Lawrence Beaumont (Forest Whitaker), recebe a missão de encontrar Charlie e sua namorada Mia (Quelin Sepulveda). A cidade — sem nome e irreal, parecendo mais uma pintura digital do que um local verdadeiro — torna-se um campo de batalha. Mas as motivações permanecem nebulosas. Walker supostamente já teria quitado sua dívida com Beaumont após resolver um problema com o DEA, então não fica claro por que ele continua arriscando tudo. As inconsistências do roteiro se acumulam, tornando melhor ignorar a lógica em favor das cenas de ação.

E que ação! Evans e o diretor de fotografia Matt Flannery coreografam cenas caóticas com notável clareza — ao menos quando a câmera não treme tanto a ponto de dificultar o acompanhamento. Sequências como a batalha em uma boate e o confronto brutal em uma cabana na neve estão entre as melhores cenas de ação dos últimos tempos. A montadora Sara Jones garante a consciência espacial mesmo em meio à loucura, uma habilidade rara no cinema de ação moderno. Hardy, com o apoio do dublê Jacob Tomuri, entrega uma performance fisicamente impressionante: espancado, ensanguentado, mas incansável. Timothy Olyphant e Jessie Mei Li também se entregam ao caos, embora seus personagens sejam pouco desenvolvidos para deixar um impacto mais perene.

Cena de Havoc
Foto: Divulgação

Ainda assim, a violência acaba entorpecendo. Enquanto “The Raid” equilibrava brutalidade com uma sensação de energia cinética, “Havoc” tende ao niilismo sombrio. Civis inocentes são mortos sem cerimônia, como na brutal execução em um corredor de hospital, notável pela crueldade. O cenário natalino apenas reforça a ironia mórbida, embalando a visão suja de Evans em um verniz festivo. Em vez de catarse ou emoção, a miséria constante corre o risco de alienar o público — ainda mais quando falta investimento nos personagens pegos no fogo cruzado.

Apesar dessas falhas, a performance de Hardy permanece magnética. Mesmo preso a material clichê — o policial corrupto em busca de redenção, um recorte já explorado à exaustão —, ele encontra nuances que outros poderiam deixar passar. Walker é um homem à beira do abismo, carregando culpa e ódio de si mesmo. Hardy dá humanidade ao personagem através de gestos sutis, padrões de fala arrastados e uma fisicalidade ferida. Embora o filme frequentemente o reduza a um vetor de violência, Hardy insiste em transmitir algo mais: uma alma sob os hematomas.

Apesar dos lampejos de genialidade, o filme soa como uma oportunidade perdida. Evans ainda sabe montar cenas de ação incríveis, mas sua transição da fisicalidade marcial de “The Raid” para o tiroteio incessante de “Havoc” é menos satisfatória. A falta de humor — intencional ou não — drena o filme de leveza e tensão. Há uma linha tênue entre brutalidade e tédio, e “Havoc” a cruza mais de uma vez.

Ainda assim, é admirável a coragem de Evans e sua equipe em apostar tão plenamente nessa visão. “Havoc” não é um filme fácil — tampouco divertido. É feio, punitivo e, às vezes, brilhante, com cenas de ação que permanecem na mente muito tempo após os créditos finais. E, no centro desse massacre, está Tom Hardy, um ator cujo alcance continua vasto e perturbador demais para ser devidamente enquadrado.

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