Redação Culturize-se
Todos temos hobbies — seja pintar, praticar esportes ou jogar videogame — que capturam nossa atenção. Mas você já se envolveu tanto em uma atividade que ela invadiu seus sonhos? Se sim, você experimentou o chamado Efeito Tetris, um fenômeno psicológico que não apenas explica por que sonhamos com o que fazemos no dia a dia, mas que também pode ser a chave para entender a memória, tratar o TEPT (transtorno de estresse pós-traumático) e até compreender casos de amnésia.
O que é o Efeito Tetris?
Nomeado em homenagem ao clássico jogo de quebra-cabeça, o Efeito Tetris foi cunhado pelo jornalista Jeffery Goldsmith em 1994. Ele descreve como o envolvimento prolongado em uma tarefa repetitiva — como jogar Tetris por horas — pode fazer com que elementos dessa atividade apareçam nos pensamentos e sonhos da pessoa. Por exemplo, alguém imerso em Tetris pode começar a visualizar objetos do mundo real como formas que precisam ser encaixadas ou sonhar com blocos caindo e soluções para os desafios do jogo.
Esse fenômeno vai além do Tetris. Há outros “ecos cognitivos” semelhantes, como músicas que ficam presas na cabeça, vibrações fantasmas de celular ou enxadristas visualizando mentalmente os movimentos das peças. Essas impressões mentais persistentes mostram como o cérebro retém e repete experiências mesmo quando não estamos mais engajados nelas ativamente.
Uma das aplicações mais promissoras do Efeito Tetris está no tratamento de flashbacks de TEPT. Um estudo de 2020 dividiu os participantes em dois grupos: um recebendo a terapia padrão (Dessensibilização e Reprocessamento por Movimento Ocular, ou EMDR) e outro combinando EMDR com sessões diárias de Tetris durante seis semanas. Após seis meses, o grupo que jogou Tetris apresentou aumento no volume do hipocampo — região crucial para a memória — e relatou menos sintomas de TEPT. Já o grupo controle não mostrou mudanças significativas.
A neurocientista Emily A. Holmes, da Universidade de Uppsala, explicou à ABC News por que o Tetris pode ajudar: “Seu cérebro não consegue fazer duas coisas do mesmo tipo ao mesmo tempo. Você não pode ter uma imagem muito vívida e jogar Tetris ao mesmo tempo.” Ou seja, as exigências visuo-espaciais do jogo podem interferir na capacidade do cérebro de sustentar imagens traumáticas, funcionando como uma ferramenta terapêutica não invasiva.
Sonhos, aprendizado e o inconsciente
O Efeito Tetris também oferece pistas sobre como os sonhos funcionam. Em 2000, o pesquisador do sono da Universidade de Harvard, Robert Stickgold, decidiu estudar o fenômeno após sonhar com a montanha que havia escalado o dia inteiro. Seus alunos sugeriram estudar o Tetris, por ser uma atividade repetitiva.
A pesquisa revelou dois achados importantes:
- Iniciantes sonham mais do que especialistas – Jogadores inexperientes de Tetris eram mais propensos a sonhar com o jogo do que os veteranos, sugerindo que o cérebro revisita tarefas novas durante o sono para facilitar o aprendizado.
- Amnésicos também sentem o efeito – Em um experimento, participantes com danos no hipocampo (sem memória de curto prazo) não lembravam de ter jogado Tetris no dia anterior — mas alguns ainda sonharam com blocos caindo. Notavelmente, uma paciente posicionou instintivamente os dedos nas teclas corretas no dia seguinte, mesmo sem lembrar conscientemente do jogo.
“Ela não sabia exatamente o que estava fazendo, mas ao mesmo tempo sabia,” disse Stickgold à Scientific American. Isso se alinha ao conceito freudiano do inconsciente — memórias que guiam nosso comportamento mesmo sem percepção consciente.
Embora muito ainda seja desconhecido, o Efeito Tetris destaca a incrível capacidade do cérebro de absorver e reproduzir experiências — inclusive durante o sono. De ajudar a aliviar sintomas do TEPT a lançar luz sobre os mistérios da memória e dos sonhos, esse fenômeno curioso mostra que, às vezes, as chaves para a neurociência podem estar em lugares inesperados — até mesmo em um videogame dos anos 1980.