Redação Culturize-se
Poucos cineastas imprimiram suas marcas no cinema de forma tão indelével quanto David Cronenberg. Seu mais recente trabalho, “The Shrouds”, estreou no Festival de Cinema de Nova York diante de uma plateia em silêncio absoluto — uma reação que revela o inesperado peso emocional do filme. Distante do horror corporal visceral de “Videodrome” ou “Scanners”, esta é uma obra profundamente pessoal sobre o luto, envolta em uma narrativa de duplos, tecnologia especulativa e conspirações obscuras. Em uma conversa com o site The Film Stage horas após a premiere, Cronenberg falou sobre a origem do filme, sua execução técnica e como ele se afasta — e ao mesmo tempo aprofunda — seus temas recorrentes.
“The Shrouds” acompanha Karsh (Vincent Cassel), um empresário que desenvolve uma tecnologia funerária polêmica que permite aos vivos monitorar, em tempo real, a decomposição dos corpos de seus entes queridos. A premissa, ao mesmo tempo grotesca e poética, reflete o próprio confronto de Cronenberg com a morte, após a perda de sua esposa, Carolyn, em 2017.
“Quando minha esposa morreu, li todos os livros conhecidos sobre luto — Joan Didion, C.S. Lewis”, contou o diretor. “Mas em nenhum deles encontrei exatamente o que eu sentia. “O Ano do Pensamento Mágico“, da Didion, é muito desencarnado. Ela mal menciona o corpo do marido, ignora a ausência física. Percebi que todo luto é único porque as relações são únicas. Você não encontra seu luto no de outra pessoa.”
Essa intimidade distingue “The Shrouds” de obras anteriores do cineasta. Se filmes como “Crash – Estranhos Prazeres” ou “A Mosca” externalizavam tormentos psicológicos por meio da transformação corporal, aqui o horror é mais silencioso, mais interno. As cenas mais perturbadoras — como uma viúva observando o corpo do marido por meio de um véu digital, ou o rosto de uma amante replicado em outra mulher — tratam menos do choque e mais do peso insuportável da ausência.
Fluidez de identidade
Inicialmente, Léa Seydoux interpretaria os dois papéis que acabaram com Diane Kruger. “Teria sido um filme completamente diferente”, admitiu Cronenberg. “Léa é mais jovem, haveria uma diferença maior de idade entre ela e Vincent. Diane, por outro lado, fala sem sotaque, o que é incrivelmente difícil. Mas Léa e eu ainda queremos trabalhar juntos — ela só precisava de um tempo com o filho depois de emendar cinco filmes.”
A atuação de Kruger é central, encarnando tanto a esposa falecida de Karsh quanto a mulher viva que pode ou não substituí-la. A duplicidade de corpos e identidades remete à longa fascinação de Cronenberg com o “eu” instável. “Não é só sobre perda”, disse ele. “É sobre como tentamos reconstruir o que se foi — e como essa reconstrução inevitavelmente falha.”

Pela primeira vez em décadas, Cronenberg trabalhou sem seu tradicional diretor de fotografia, Peter Suschitzky, ausente por conflitos de agenda. Douglas Koch assumiu o posto, trazendo uma abordagem visual diferente, mas igualmente marcante. “Doug é muito canadense, muito Toronto, enquanto Peter é muito britânico”, comentou. “Mas a transição foi tranquila, porque, no fim das contas, a iluminação e a composição partem de mim.”
A transição para a cinematografia digital também alterou seu processo. “Não gosto de filme físico”, confessou. “Com o digital, o que você vê no monitor é o que vai ter. É possível reluzir cenas na pós-produção, ajustar partes específicas do quadro — algo quase impossível com filme, sem perder qualidade.”
Essa flexibilidade técnica se estende à forma como dirige. Ao contrário de muitos diretores contemporâneos, Cronenberg evita múltiplas câmeras. “Você não consegue a melhor iluminação assim”, explicou. “Mesmo em ‘Crash’, com aquelas sequências de carro elaboradas, raramente usei mais de uma câmera.” Ele prefere a coreografia precisa, trabalhando lado a lado com atores e equipe para montar cada cena em tempo real. “Não faço storyboard. Não planejo os planos com antecedência. Tudo é descoberto no momento.”
De série da Netflix a longa-metragem
“The Shrouds” começou como um projeto da Netflix. Cronenberg chegou a escrever dois episódios antes da plataforma cancelar a produção. “No primeiro, Karsh viajava para a Islândia; o segundo se passava lá. Depois, seguiria para Budapeste”, lembrou. Embora a série não tenha se concretizado, sua estrutura aberta persiste no filme. “A maioria dos meus filmes não se resolve por completo. Esses personagens existem além da tela — Karsh já pode estar na China agora.”
Essa recusa ao encerramento definitivo soa especialmente adequada a uma história sobre o luto, que resiste a qualquer forma de conclusão. “O cinema se afastou daquela ideia de ‘peça bem-feita’, onde tudo se amarra perfeitamente”, observou o cineasta. “A vida não é assim. A perda não é assim.”
A tecnologia como extensão do corpo
Um dos elementos mais marcantes do filme é sua abordagem dos dispositivos modernos. Enquanto muitos cineastas evitam retratar smartphones com medo de “envelhecer” a obra, Cronenberg os abraça. “O presente já é futurista”, disse. “Se você está fazendo um filme sobre o agora, deve lidar com as ferramentas que o definem.”
Em “The Shrouds”, celulares e computadores são filmados como extensões do corpo, suas telas tão íntimas quanto a pele. Uma cena-chave, em que a personagem de Kruger grava Cassel com um iPhone, foi filmada pela própria atriz. “Ela fez em um único take”, contou Cronenberg, rindo. “Um excelente trabalho de segunda unidade.”
Essa abordagem tátil também se aplica à tecnologia funerária fictícia do filme. “Esses véus poderiam muito bem existir hoje”, refletiu. “Não seriam como a minha versão, mas a ideia é plausível. A pergunta é: quem iria querer isso?”
Anos atrás, Cronenberg foi procurado para escrever uma sequência de “A Mosca”, que ele imaginou como “uma meditação sobre o ser-mosca”, centrada na replicação humana via impressão 3D. “O estúdio não gostou da ideia”, lembrou. “Depois, o produtor me disse: ‘Você estava certo. Isso agora é o espírito do tempo.’ Mas esse é o problema dos estúdios. Eles nem sempre veem o que está por vir.”


“The Shrouds”, por outro lado, existe inteiramente nos termos de Cronenberg — um filme que, como o luto, recusa rótulos fáceis. É ao mesmo tempo uma história de amor, um thriller conspiratório e um memento mori. “Não sei se a versão da Netflix teria sido melhor”, refletiu. “Mas o que está aqui me parece completo.”
“Algumas pessoas vão achar nojento”, observa. “Outras vão secretamente querer um véu desses. Essa é a graça.” No fim, “The Shrouds” permanece como um fantasma — inesquecível, irresoluto e impossível de ignorar.