Redação Culturize-se
Em “Tempo de Guerra”, o som das balas não é apenas ruído de fundo, mas marca registrada de uma experiência cinematográfica visceral. Dirigido por Alex Garland (“Guerra Civil”, “Aniquilação”) e pelo veterano de guerra Ray Mendoza, o longa chega aos cinemas brasileiros com a missão de redefinir o gênero dos filmes de guerra — ou, ao menos, de olhar para ele com uma lente mais íntima e menos glorificada.
O longa é o primeiro distribuído pela própria A24 no Brasil, marcando um esforço de atuação mais ampla e global da empresa que virou referência de um cinema mais cult sem prescindir de penetração comercial. Ainda não está claro, porém, se alguns filmes lançados pelo estúdio nos EUA serão distribuídos no Brasil por outras empresas. A tendência é que seja, já que falta musculatura à A24 para bancar todos os seus lançamentos fora dos EUA.
Ambientado em Ramadi, no Iraque, em 2006, durante uma operação da unidade de elite da Marinha dos Estados Unidos, os SEALs, o filme mergulha no coração de uma missão militar sob extrema tensão. A história não é fruto da imaginação hollywoodiana: Mendoza, que codirige o filme, participou diretamente da missão retratada. A produção, por isso, carrega o peso da verdade, mesmo que pareça concentrada mais nos soldados do que no contexto em que atuam.
O ponto de partida foi uma conversa entre Mendoza e Garland, durante as filmagens de “Guerra Civil”, quando os dois perceberam que formavam uma parceria criativa forte. Mendoza revelou a história de Elliott Miller, colega de pelotão e sobrevivente de Ramadi. A princípio, a ideia era um documentário. Mas, como lembra Mendoza, “as memórias retornaram com muita força, oferecendo a chance de encerrar um ciclo e alcançar entendimento”. A dupla passou a entrevistar antigos integrantes da equipe SEAL para reconstruir com fidelidade cada detalhe da operação.
E foi dessa reconstrução que surgiu “Tempo de Guerra”. O longa tem uma estrutura narrativa tensa e fechada: se desenrola em tempo real, durante a infiltração e defesa de uma casa de dois andares ocupada pela tropa. O objetivo da missão — e mesmo a identidade do inimigo — é deixado em segundo plano. “Esse é o objetivo deste filme: ouvir as pessoas que foram capazes de transmitir suas memórias e recontar suas histórias”, explica Garland.
Ainda que o título em português sugira uma abordagem ampla, o original em inglês — Warfare, ou “estado de guerra” — é mais preciso. O que o filme tenta capturar não é uma visão geopolítica do conflito no Oriente Médio, mas o estado mental, físico e emocional de soldados sob estresse extremo. “O longa assemelha-se a uma gravação real de combate”, diz Will Poulter, que interpreta o comandante da operação. “Leva ao público uma compreensão mais autêntica do que é estar em um ambiente de guerra sob pressão intensa e implacável.”
Apesar da intensidade, “Tempo de Guerra” não aposta no espetáculo tradicional do gênero. Em vez de planos abertos, discursos inflamados e heróis unidimensionais, Garland e Mendoza constroem um suspense claustrofóbico, com foco no que se passa dentro do pequeno grupo de combatentes. As trocas de olhares, os comandos sussurrados no rádio, a espera silenciosa por uma emboscada iminente — tudo contribui para um retrato angustiante e, em muitos momentos, exaustivo da guerra.
A busca pelo realismo
Para dar conta desse realismo, o elenco, composto por Cosmo Jarvis, Joseph Quinn, D’Pharaoh Woon-A-Tai, Charles Melton e Kit Connor, passou por um rigoroso treinamento militar de três semanas. Sob orientação direta de Mendoza, foram submetidos a uma versão adaptada do temido BUD/S, o programa de formação de SEALs. Aprenderam a manusear armas, utilizar o rádio com protocolo militar, realizar táticas de infiltração e trabalhar em equipe. “Colocamos os atores em situações intensas, forçando-os a enfrentar adversidades”, afirma Mendoza.





Essa preparação criou entre os atores uma espécie de irmandade que se refletiu nas performances. “O processo de treinamento foi uma abordagem inovadora para nos prepararmos para esse trabalho, criando um vínculo estreito entre nós”, diz Jarvis, que interpreta Elliott Miller. Joseph Quinn, por sua vez, elogia a construção dos personagens: “Vemos como eles lidam com situações complicadas e como a camaradagem entre eles se torna fundamental para superar os obstáculos”.
Ainda assim, é no tratamento estético e sonoro que “Tempo de Guerra” encontra seu diferencial. As explosões — reais, não digitais — e o design de som meticulosamente elaborado criam uma experiência sensorial ininterrupta. “Não damos descanso ao público, porque foi assim que nos sentimos durante a operação”, explica Mendoza. Uma das cenas mais impactantes envolve um soldado pedindo ajuda médica no rádio, sendo ignorado por burocracia. Ele, então, finge ser um oficial de maior patente para obter o socorro. O automatismo da situação gera desconforto e reforça a crítica sutil, mas presente, ao sistema.
Essa tensão se estende a todo o filme. Em seus 90 minutos, “Tempo de Guerra” reserva cerca de 15 só para simular confusão mental e surdez dos personagens após explosões, em uma tentativa de reproduzir os efeitos sensoriais e psicológicos de um combate real. O thriller, nesse sentido, flerta com o drama do estresse pós-traumático, colocando o espectador não como observador da guerra, mas como prisioneiro daquele estado de alerta permanente.
“Espero que, ao assistirem a este filme, as pessoas compreendam o quanto dependemos uns dos outros”, afirma Elliott Miller, homenageado pelo longa. O relato de Miller ecoa no que Charles Melton descreve como uma “história que prende a cada minuto, proporcionando a sensação de viver em tempo real os ataques aos SEALs”.
Mas nem tudo são louros. O filme não aprofunda a guerra ao terror, tampouco oferece perspectiva sobre os civis iraquianos ou o impacto da ocupação americana. Ao fazer isso, revela tanto sua força quanto sua limitação. A guerra, ali, é cenário — e não assunto. E, embora esse recorte funcione para o objetivo dos diretores, também levanta questões sobre a ausência de contexto político em uma história real de combate.
Ainda assim, “Tempo de Guerra” emerge como um trabalho raro: não só pela fidelidade aos detalhes, mas por sua disposição em evitar a romantização. “Já trabalhei em muitos filmes, mas nunca vi uma equipe tão dedicada”, elogia Garland. Kit Connor resume bem: “O trabalho foi uma verdadeira carta de amor para esses irmãos e o que eles fizeram para manter uns aos outros vivos”.