Redação Culturize-se*
Uma pesquisa internacional, publicada na revista Nature, investigou a ausência de espécies vegetais em 119 regiões do mundo, um fenômeno denominado “diversidade faltante”. Mais de 200 pesquisadores da colaboração DarkDivNet analisaram 5.500 locais, coordenados por Meelis Pärtel (Universidade de Tartu) com participação de brasileiras como Alessandra Fidelis (Unesp).
O estudo revelou que em áreas com baixo impacto humano, os ecossistemas geralmente possuem mais de um terço das espécies potencialmente adequadas, com a ausência das demais ligada a fatores naturais como dispersão limitada. Contudo, em regiões fortemente afetadas pela atividade humana, essa proporção cai para apenas uma em cada cinco espécies adequadas.
Alessandra Fidelis explica que a “diversidade faltante” permite quantificar o impacto humano no potencial da vegetação natural. As medidas tradicionais de biodiversidade, que apenas contam as espécies presentes, não conseguem detectar essa influência, pois a variação natural entre regiões mascara o verdadeiro efeito antrópico.
Meelis Pärtel destaca que a colaboração DarkDivNet, iniciada em 2018, superou desafios como a pandemia e crises econômicas para coletar dados globais consistentes. Fidelis aderiu ao estudo desde o início, coletando informações na região de Itirapina (SP), que apresenta tanto Cerrado nativo quanto áreas antropizadas.
A pesquisa demonstra que o impacto humano não apenas elimina espécies existentes, mas também impede a ocorrência daquelas que potencialmente poderiam viver na área, afetando a regeneração natural. O nível de perturbação antrópica, medido pelo Índice da Pegada Ecológica, mostrou ter uma correlação negativa com a diversidade de plantas, com a influência se estendendo por centenas de quilômetros.

Pärtel alerta que essa descoberta é alarmante, pois indica um impacto humano muito mais amplo do que se pensava, atingindo até reservas naturais. Poluição, desmatamento, descarte de lixo e incêndios excluem plantas e impedem a recolonização. O estudo também constatou que manter ao menos um terço da região ao redor intacto mitiga esse impacto negativo, reforçando a meta global de proteger 30% do território terrestre até 2030.
Os autores atribuem o empobrecimento da vegetação à fragmentação, perda de conectividade, perda de dispersores de sementes, distúrbios e eutrofização. A presença de pelo menos 30% de paisagem natural demonstrou reduzir esses efeitos. O estudo enfatiza a necessidade de utilizar o conceito de “diversidade faltante” em atividades de conservação e restauração para manter e melhorar a saúde dos ecossistemas além das reservas naturais.
*Com informações da Agência Fapesp