Redação Culturize-se*
Uma pesquisa conduzida na Universidade de São Paulo (USP) investigou a intrincada relação entre os traços de personalidade e o desenvolvimento, bem como a persistência, da insônia, um distúrbio do sono de alta prevalência e com impactos significativos na saúde física e mental. Os resultados do estudo, publicados no prestigiado Journal of Sleep Research, revelaram associações diretas entre características específicas da personalidade e a ocorrência do distúrbio.
Dois achados principais se destacaram na pesquisa liderada pela psicóloga do sono Bárbara Araújo Conway, autora de sua dissertação de mestrado defendida no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM-USP), com o apoio da FAPESP e orientação da professora Renatha El Rafihi-Ferreira. O primeiro deles aponta para uma correlação negativa entre altos índices de “abertura à experiência” e a presença de insônia. Indivíduos mais abertos, caracterizados pela criatividade, curiosidade e interesse por novidades, demonstraram menor propensão a sofrer do distúrbio do sono.
O segundo achado de grande relevância reside na forte prevalência de altos níveis de “neuroticismo” – um traço de personalidade associado à instabilidade emocional e à tendência a focar em aspectos negativos da vida – em pessoas diagnosticadas com insônia. Indivíduos com alto neuroticismo mostraram-se mais suscetíveis ao estresse e à desorganização diante de adversidades, fatores que podem contribuir para o desenvolvimento e a manutenção da insônia.
Bárbara Araújo Conway enfatiza a importância da pesquisa diante da alta prevalência da insônia e de seus impactos negativos na qualidade de vida. “Decidimos estudar a influência dos traços de personalidade sobre a insônia por se tratar de um transtorno extremamente prevalente e que traz impactos negativos para a saúde, como maior risco de hipertensão, diabetes, ansiedade e depressão. Essas diversas condições de saúde física e mental levam a uma pior qualidade de vida de forma geral”, explica a pesquisadora.
As autoras do estudo ressaltam que a insônia é um dos distúrbios do sono mais comuns em adultos, afetando cerca de 30% da população mundial. No Brasil, especificamente em São Paulo, os números são ainda mais alarmantes, com quase metade dos paulistanos (45%) relatando queixas de insônia, conforme dados do Estudo Epidemiológico do Sono (Episono).

Metodologia
Para compreender a complexa interação entre personalidade e insônia, os pesquisadores se basearam na teoria dos “3 Ps” da insônia: predisposição (fatores que tornam um indivíduo mais vulnerável ao distúrbio), precipitação (eventos ou gatilhos que desencadeiam os sintomas) e perpetuação (comportamentos que mantêm o ciclo vicioso da insônia).
A hipótese inicial do estudo era que o neuroticismo, frequentemente observado em indivíduos com insônia, poderia ser considerado um fator de predisposição ao transtorno do sono. Além disso, os pesquisadores investigaram se sintomas de ansiedade e depressão poderiam atuar como mediadores ou moderadores na relação entre o neuroticismo e a insônia.
Para avaliar os traços de personalidade dos participantes, os pesquisadores utilizaram um questionário específico da área da psicologia, baseado no modelo dos “Big Five”, que descreve cinco dimensões amplas da personalidade: extroversão, neuroticismo, amabilidade, abertura à experiência e conscienciosidade. Cada indivíduo possui diferentes níveis em cada um desses traços, que influenciam seus sentimentos, pensamentos e comportamentos.
No estudo, foram avaliados 595 participantes com idades entre 18 e 59 anos, divididos em dois grupos: um composto por pacientes diagnosticados com insônia por especialistas em sono e outro grupo controle, formado por pessoas sem queixas de insônia. Os níveis de personalidade de cada participante foram quantificados por meio do questionário, permitindo aos pesquisadores analisar as associações entre os traços e a presença ou ausência de insônia.
A análise dos dados revelou que os pacientes com insônia apresentavam níveis significativamente mais altos de neuroticismo em comparação com o grupo controle. Além disso, o grupo com insônia também demonstrou níveis mais baixos de amabilidade (tendência a ser empático e cordial), abertura à experiência e conscienciosidade (organização e responsabilidade). A extroversão foi o único traço de personalidade que não apresentou diferenças significativas entre os grupos.
As análises estatísticas mais detalhadas permitiram aos pesquisadores afirmar que indivíduos com altos índices de neuroticismo possuem uma maior propensão a desenvolver insônia. Adicionalmente, o estudo demonstrou que a ansiedade atua como um mecanismo de mediação nessa relação. Em outras palavras, os sintomas de ansiedade são o elo que conecta o alto neuroticismo ao desenvolvimento da insônia, explicando o efeito do primeiro sobre o segundo. A depressão, por outro lado, não se mostrou um fator mediador relevante nessa associação.
Resultados
As implicações práticas desses achados são significativas. Considerando que os traços de personalidade estão intrinsecamente ligados à saúde física e mental, o estudo sugere que a identificação dos traços mais prevalentes em indivíduos com insônia pode otimizar os processos de avaliação, prevenção e planejamento de tratamentos mais personalizados e eficazes.
Os resultados reforçam a importância de investigar e tratar a ansiedade em pacientes com insônia. “Essas descobertas são importantes na prática clínica, pois ao receber pacientes com esse traço de personalidade é fundamental pensar em um plano de tratamento que foque não somente no sono, mas também na ansiedade”, salienta a professora Renatha El Rafihi-Ferreira.
Para que essa abordagem seja implementada de forma efetiva, os profissionais de saúde precisam incorporar a avaliação da personalidade em sua prática clínica ao atender pacientes com problemas de sono. “Sabemos que a maioria dos insones tem alto índice de neuroticismo. Esses pacientes merecem investigar e tratar sua ansiedade para que a insônia também melhore. Por vezes isso envolve terapias e medicações diferentes, por isso é importante ter um olhar mais amplo para a história e especificidade de cada indivíduo”, enfatiza Bárbara Araújo Conway.

Embora a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) seja considerada o tratamento de primeira linha, a escassez de profissionais especializados no Brasil e a variabilidade das respostas individuais ao tratamento reforçam a necessidade de abordagens mais amplas e personalizadas. Os pesquisadores defendem o desenvolvimento de protocolos de tratamento transdiagnóstico, que integrem técnicas comportamentais para abordar um conjunto de dificuldades emocionais subjacentes a diferentes queixas, incluindo a insônia e a ansiedade.
“A associação entre traços de personalidade, ansiedade e insônia traz a importância do desenvolvimento de protocolos de tratamento transdiagnóstico, isto é, que envolvam a integração de técnicas e processos comportamentais para tratar um conjunto de dificuldades emocionais que compartilham processos e mecanismos subjacentes às diferentes queixas”, pontua a orientadora do estudo.
“Já temos um tratamento não farmacológico para insônia, mas, da mesma forma que não temos um medicamento que vai ser eficaz para todos os pacientes, uma única abordagem de terapia também pode não funcionar para todo mundo. Esses resultados contribuem para o desenvolvimento de novos protocolos psicológicos e comportamentais mais personalizados para o tratamento da insônia”, conclui Conway.
*Com informações da Agência Fapesp