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O adeus a Val Kilmer

Redação Culturize-se

Val Kilmer, o ator enigmático que personificou desde ídolos do rock até pistoleiros com igual intensidade e vulnerabilidade, faleceu nesta terça-feira (1º) em sua casa em Los Angeles devido a complicações de pneumonia. Ele tinha 65 anos. Sua morte, confirmada por sua filha Mercedes Kilmer ao The New York Times, ocorreu poucas horas antes de ele fazer uma rara aparição pública no Festival de Cinema de Beverly Hills – uma ironia cruel para um artista que passou seus últimos anos lutando contra câncer de garganta enquanto refletia sobre seu legado no comovente documentário “Val” (2021), disponível no Amazon Prime Video.

Foto: Divulgação

Uma carreira definida pela transformação

Poucos atores conseguiam transitar entre o charme de blockbuster e a crueza de filmes autorais como Kilmer. Estreando como o roqueiro obcecado por Elvis em “Top Secret!” (1984), tornou-se um ícone geracional dois anos depois como Iceman, o rival sarcástico de Tom Cruise em “Top Gun – Ases Indomáveis”. “As pessoas ainda citam ‘Você pode ser meu wingman qualquer hora’ nos aeroportos”, brincou Kilmer certa vez. Seu retorno em “Top Gun: Maverick” (2022) – com sua voz alterada pelo câncer e sua presença reduzida a algumas cenas emocionantes – fechou um ciclo em sua carreira, com críticos elogiando o “pathos ressonante” de sua atuação.

Mas Kilmer nunca se contentou com o molde de protagonista hollywoodiano. Ele se transformou em Jim Morrison para “The Doors” (1991) de Oliver Stone, passando meses estudando os maneirismos do cantor e gravando vocais tão perfeitos que Roger Ebert maravilhou-se: “Não é atuação – é possessão”. Depois veio “Tombstone” (1993), onde seu Doc Holliday – um pistoleiro tuberculoso e beberrão – roubou o filme. “Ele trabalha mais que a maioria para fazer parecer fácil”, disse o diretor George Cosmatos, comparando-o a De Niro.

Até sua passagem por “Batman Eternamente” (1995) foi corajosamente polêmica. Embora o filme tenha arrecadado US$ 336 milhões, Kilmer brigou com o diretor Joel Schumacher e abandonou o papel, chamando-o depois de “estranho”, mas admitindo: “Eu disse sim sem ler o roteiro”.

Nascido em 1959 em Chatsworth, Califórnia, a vida de Kilmer foi marcada por tragédia precoce. Aos 17 anos, seu irmão mais novo Wesley afogou-se em uma piscina quando Kilmer partia para Juilliard – o aluno mais jovem já admitido em seu programa de drama. “A escola me forçou a confrontar vida e morte”, refletiu depois.

A notícia da morte de Kilmer provocou uma onda de homenagens de colegas que admiravam sua versatilidade sem medo:

  • Michael Mann: “Seu alcance era impressionante. Uma corrente poderosa de criatividade.”
  • Nicolas Cage: “Um gênio. Ele deveria ter ganhado um Oscar por ‘The Doors’.”
  • Francis Ford Coppola: “O ator mais talentoso que conheci desde o ensino médio.”
  • Josh Brolin: “Um foguete desafiador e corajoso. Não restam muitos como ele.”

As redes sociais foram inundadas com cenas de seus papéis mais icônicos: o assaltante de banco de “Fogo contra Fogo” se despedindo sem palavras de Ashley Judd; Madmartigan declarando bêbado “Eu te amo!” em “Willow”; a rivalidade gelada entre Iceman e Maverick. “Ele me fez querer pilotar jatos, ser o Batman e assaltar bancos – tudo ao mesmo tempo”, tuitou o cineasta Dylan Park-Pettiford.

Na ordem em sentido horário: “Fogo Contra Fogo”; “Tombstone”; “The Doors”; “Batman Eternamente”; “Willow” e “Top gun” | Foto: montagem sobre reprodução

O legado de um maverick

Os últimos anos de Kilmer foram definidos por resiliência. Após seu diagnóstico de câncer em 2015 deixá-lo com uma traqueostomia, ele voltou-se para arte e escrita, publicando poesias e esboços. “Val”, o documentário de 2021 compilado de seus arquivos pessoais, revelou um homem lidando com a mortalidade mas ainda brincalhão – filmando-se como Batman para seus netos ou zoando o caótico set de “The Island of Dr. Moreau”.

“Val nunca parou de criar”, disse Shane Black, que o dirigiu em “Beijos e Tiros”. “Mesmo sem voz, ele falava através de sua arte.”

Kilmer deixa seus filhos Mercedes e Jack, ambos atores. Enquanto Hollywood chora, seus filmes permanecem como testemunho de uma rara verdade: os melhores atores não apenas interpretam personagens – eles vivem dentro deles. Como Morrison, Holliday ou Iceman, Kilmer garantiu que nunca esqueceríamos o homem por trás da máscara.

“Não sou uma estrela de cinema. Sou um ator. Estrelas têm medo de mudar.” – Val Kilmer, 2002

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