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Steven Soderbergh reafirma seu talento e visão com dois novos e disruptivos filmes

Reinaldo Glioche

Steven Soderbergh, o prolífico cineasta conhecido por sua ética de trabalho incansável e projetos que desafiam gêneros, está de volta aos cinemas brasileiros com dois longas. O primeiro, “Código Preto”, que estreia nesta quinta (13), é um thriller de espionagem elegante, e “Presença”, programado para o início de abril, uma história de fantasmas minimalista. Ambos os filmes mostram a habilidade de Soderbergh de reinventar gêneros familiares enquanto mantém seu estilo característico—narrativa eficiente, cinematografia inovadora e um talento para extrair performances brilhantes de seu elenco. Juntos, eles destacam por que Soderbergh continua sendo uma das vozes mais fascinantes do cinema contemporâneo. 

“Código Preto” marca o retorno de Soderbergh ao gênero de espionagem pela primeira vez desde “À Toda Prova” (2011). Escrito por seu colaborador frequente David Koepp, o filme estrela Michael Fassbender e Cate Blanchett como George Woodhouse e Kathryn St. Jean, um casal que também são agentes do MI6. Quando George suspeita que um traidor dentro do MI6 pode ser sua própria esposa, o filme se transforma em uma exploração tensa e centrada no diálogo sobre confiança, lealdade e as complexidades do casamento. 

O que diferencia “Código Preto” dos thrillers de espionagem tradicionais é seu foco na dinâmica dos personagens em vez de cenas de ação. O filme começa com um plano-sequência contido, no estilo de “Os Bons Companheiros” (1990), apresentando os espectadores a um mundo de tensão discreta e ambiguidade moral. George, interpretado por Fassbender, é um polígrafo humano, frio e calculista, enquanto Kathryn, de Blanchett, é sedutora, mas enigmática. A química entre eles é eletrizante, e os momentos mais envolventes do filme vêm não de tiroteios ou perseguições de carro, mas de cenas de confrontos verbais e manipulação emocional. 

Uma sequência marcante é uma cena tensa de jantar envolvendo seis personagens, onde mentiras são expostas e os limites profissionais e pessoais se confundem. As escolhas de elenco de Soderbergh brilham aqui, com Tom Burke, Marisa Abela, Regé-Jean Page e Naomie Harris completando o inspirado conjunto. Cada personagem adiciona camadas à narrativa, criando um barril de pólvora de conflitos interpessoais que Soderbergh acende com maestria. 

“Código Preto” é um filme de espionagem para quem gosta de pensar, traçando comparações com “O Espião Que Sabia Demais” de John le Carré e até mesmo com o drama conjugal de “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”. É um filme sobre contradições—sensual sem cenas explícitas de sexo, uma caixa de quebra-cabeças que não é sobre o quebra-cabeça, e uma bomba-relógio sem uma bomba literal. No fundo, é uma história sobre a verdade em uma profissão construída sobre mentiras, e a direção de Soderbergh garante que cada reviravolta pareça ao mesmo tempo fresca e inevitável. 

Foto: Divulgação

Uma história de fantasma na perspectiva do fantasma

Se “Código Preto” é uma aula de reinvenção de gênero, “Presença” é um experimento ousado em narrativa. Contada inteiramente na perspectiva em primeira pessoa de um espírito, o filme é uma história de fantasmas minimalista que explora temas como luto, moralidade e autodescoberta. O espírito, cuja natureza é revelada gradualmente, observa a família Payne enquanto eles se mudam para uma nova casa. Cada membro da família reage de maneira diferente à presença, com a filha adolescente Chloe (Callina Liang) sendo a primeira a senti-la. 

A família Payne é um microcosmo de disfunção. Rebecca (Lucy Liu) é uma executiva determinada e pouco empática, enquanto seu marido Chris (Chris Sullivan) é gentil, mas emocionalmente distante. O filho Tyler (Eddy Madday) é arrogante e egocêntrico, enquanto Chloe, ainda em luto pela perda de sua melhor amiga, é a mais sensível à presença do espírito. À medida que o filme avança, as interações do espírito com a família—e sua própria jornada de autodescoberta—ganham destaque. 

“Presença” não é um filme de terror tradicional. Em vez disso, é um drama sobre moralidade e responsabilidade pessoal, contado na perspectiva de alguém que não está mais vivo. O roteiro de David Koepp é repleto de simbolismo, desde o sobrenome da família (Payne, que significa “dor”) até o nome do meio de Chloe (Blue, que sugere tanto sua tristeza quanto seu potencial para a graça). A direção e a cinematografia de Soderbergh são fundamentais para o sucesso do filme, já que ele mesmo opera a câmera, incorporando a perspectiva do espírito e atuando ao lado do elenco. 

A revelação lenta de informações mantém os espectadores engajados, já que cada novo detalhe muda sua compreensão da história. Embora algumas subtramas, como os negócios de Rebecca e os problemas conjugais do casal, pareçam subdesenvolvidas, a narrativa geral é uma exploração comovente de como nossas escolhas nos definem, mesmo após a morte. 

Tanto “Código Preto” como “Presença” exemplificam a capacidade de Soderbergh de expandir os limites da cinematografia enquanto permanece fiel à sua visão artística. Sua eficiência como diretor—assumindo tudo, desde a fotografia até a edição—permite que ele mantenha o controle criativo e entregue filmes que parecem ao mesmo tempo pessoais e polidos. 

“Código Preto” é um lembrete do talento de Soderbergh para criar thrillers inteligentes e centrados nos personagens. É um filme que respeita seu público, confiando que ele acompanhe as reviravoltas enquanto oferece uma recompensa emocional satisfatória.

“Presença”, por outro lado, mostra a disposição de Soderbergh para correr riscos. Ao contar a história na perspectiva de um espírito, ele cria uma experiência única que desafia as estruturas narrativas tradicionais. O foco do filme na moralidade e na autorreflexão ressoa profundamente, tornando-o mais do que uma simples história de fantasmas—é uma meditação sobre o que significa viver (e morrer) com integridade. 

Lucy Liu em cena de “Presença” | Foto: Divulgação

Em um momento em que a indústria cinematográfica enfrenta desafios, desde as disrupções do streaming até as mudanças nas preferências do público, o trabalho de Soderbergh é um farol de esperança. Sua capacidade de equilibrar experimentação artística com apelo mainstream é um testemunho de sua habilidade e visão. Com cada projeto, ele empurra o meio para frente, lembrando-nos do poder do cinema para entreter, provocar e inspirar. Para os fãs de histórias inteligentes e centradas nos personagens, esses filmes são imperdíveis—e um lembrete de por que estamos todos na expectativa para o que Soderbergh fará a seguir. 

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