Redação Culturize-se
Poucos executivos remodelaram a indústria do entretenimento tão profundamente quanto Ted Sarandos. Durante seus 25 anos na Netflix — desde os tempos do aluguel de DVDs pelo correio até sua ascensão como um império do streaming avaliado em US$ 300 bilhões — Sarandos redefiniu a maneira como o mundo consome conteúdo. Agora, enquanto se prepara para uma estreia cômica como ator na série “The Studio”, do Apple TV+, o co-CEO de 60 anos conversou abertamente com a Variety sobre o passado, o presente e o futuro da Netflix.
A jornada de Sarandos começou em um lugar improvável: uma locadora de vídeo. Essa experiência direta com as preferências do público tornou-se a base do modelo orientado por dados da Netflix. “Eu era o único cara sem formação em tecnologia na Netflix no começo”, lembra ele, rindo ao se descrever como “o cara barulhento ao telefone” negociando acordos com estúdios a partir de um cubículo. Seu primeiro grande desafio? Atender à demanda por DVDs de “Jurassic Park”.
Hoje, a Netflix tem 300 milhões de assinantes globais e um orçamento anual de conteúdo impressionante de US$ 18 bilhões. Ainda assim, Sarandos mantém uma postura modesta, mesmo ao satirizar sua própria reputação na indústria em “The Studio”. “Perguntei várias vezes ao Seth Rogen: ‘Essa versão de mim é exagerada?’”, diz ele sobre sua participação como um executivo implacável.

O manual da Netflix
A ascensão da Netflix não ocorreu sem tropeços. Sarandos relembra duas crises existenciais: o fiasco do Qwikster em 2011 (uma tentativa fracassada de dividir os negócios de DVDs e streaming, que fez o valor das ações despencar) e o pânico de Wall Street em 2022 sobre o crescimento de assinantes. “Perdemos US$ 54 bilhões em valor de mercado em um único dia”, ele recorda. Sua reação? Dobrar a aposta nos “quatro C’s”: conteúdo (content), escolha (choice), conversa (conversatition) e comércio (commerce) — mais tarde adicionando um quinto: reação (chain reaction).
O surgimento de concorrentes como Disney+ e Max assustou os investidores no início, mas Sarandos permaneceu impassível. “Nosso diferencial é a personalização”, explica. “Não somos um selo de um único gênero. Se você ama documentários, somos a casa dos docs. Se ama dramas, somos a casa dos dramas.”
O amor e ódio de Hollywood pela Netflix
Apesar de dominar as indicações a prêmios — a Netflix liderou o Oscar por três anos consecutivos — a indústria ainda vê Sarandos com desconfiança. “Os votantes da Academia têm algo contra nós?” ele reflete. “Você indica filmes que respeita, mas vota naqueles que ama.” Ele desconsidera as análises sobre a derrota de “Emilia Pérez” no Oscar, chamando as especulações sobre os tuítes de Karla Sofía Gascón de “um balde de água fria”.
A controvérsia com Dave Chappelle — quando Sarandos defendeu o comediante em meio a críticas — testou seus princípios. “Censurar comédia não parecia certo”, ele diz, embora admita que sua primeira resposta foi “desajeitada” ao minimizar preocupações sobre “impactos no mundo real”.
Apostas para o futuro
A estratégia de Sarandos é equilibrar grandes sucessos (“Stranger Things”, “Round 6″) com riscos calculados:
- O Nárnia de Greta Gerwig será lançado nos cinemas Imax antes de chegar ao streaming — uma novidade para a Netflix. “Não se trata de prêmios; trata-se de criar um evento”, diz ele.
- Esportes ao vivo (WWE, jogos da NFL no Natal) estão crescendo, mas ele descarta comprar temporadas inteiras: “Quero o Super Bowl, não 17 jogos.”
- Games e e-commerce, como a marca As Ever de Meghan Markle, são experimentos. “As pessoas menosprezam Harry e Meghan, mas a influência cultural dela é inegável.”
Sarandos ainda persegue dois grandes objetivos: um Oscar de Melhor Filme (“Faremos um que as pessoas amem”) e convencer Christopher Nolan a trabalhar com a Netflix (“Respeito o amor dele pelos cinemas”). Enquanto isso, ele aposta na próxima fase da Netflix: “Eventos ao vivo, games e experiências físicas vão aprofundar o fandom — pense em Topgolf, não Disneyland.”
E sobre seu legado? Sarandos, que mantém um DVD de “Short Cuts“, de Robert Altman, por nostalgia, sorri: “Nenhum ano na Netflix foi igual ao anterior. Por que eu sairia agora?”. O reinado de Sarandos prova que, no cenário darwiniano do entretenimento, o futuro pertence àqueles que inovam — e depois se reinventam.