“Histórias que um Pessimista Contaria a Seus Netos se Tivesse Decidido Ter Filhos” , de Renato Maia, é um triunfo ao usar o pessimismo como desfibrilador
Por Reinaldo Glioche
“Convém sermos pessimistas hoje em dia”, diz em entrevista ao Culturize-se o filósofo Renato Maia. “Mas sejamos pessimistas esclarecidos. Indivíduos que enxerguem que a vida não é passeio, mas que sejam capazes de identificar e estejam abertos para vivenciar a alegria, ainda que em breves instantes de distração”. Maia está lançando pela editora Ases da Literatura o excelente livro “Histórias que um Pessimista Contaria a Seus Netos se Tivesse Decidido Ter Filhos” (202 pgs, R$ 74,90).

O título, confessa, é uma provocação que sempre lhe rondou. Ele admite certo fascínio com a “ideia de procriar” e do legado que se deixa para as gerações vindouras; “então a provocação embutida nesse título representa justamente esse impasse que o pessimismo extremo pode gerar”. Mas não pense que o autor é um pessimista incorrigível. Ele apenas se mune dessa condição para incrementar sua visão de mundo e ajustar expectativas. “A meu ver, o pessimismo é salutar, desde que na medida certa. Aquela máxima de que a diferença entre o remédio e o veneno é a dose pode ser batida, mas não deixa de ser verdadeira”.
No livro, na seção “Esclarecimento ao Leitor”, Maia oferece uma reflexão mais profunda. “Embora o sublime me encante, minha origem proletária me obriga a pensar que o trágico não é, nem pode ser, exclusividade de nobres, herdeiros de tronos, guerreiros invencíveis, conspiradores ambiciosos ou solucionadores de enigmas de seres mitológicos”. Maia alerta seu leitor de que os contos se guiarão pela banalidade que torna mais eloquentes os desdobramentos trágicos inoculados nos pequenos gestos. “A oscilação entre a ânsia de ter e o tédio de possuir faz com que toda alegria seja provisória e todo prazer seja acompanhado de alguma dor”.
Ele complementa esse vaticínio no papo com Culturize-se. “Vivemos num momento em que o coach #gratiluz com seu modo de vida “good vibes only” nos faz crer que nosso sucesso ou fracasso são determinados pelo grau de positividade com que encaramos a vida”. Para ele, essa desinformação deve ser vacinada com o retorno aos clássicos e Guimarães Rosa lhe desponta como um bom antídoto. “Ele já dizia que a vida é isso: esquenta e esfria, aperta e afrouxa, mas o que ela quer mesmo de nós é coragem. A meu ver, olhar a vida considerando nossa condição miserável e tentar de alguma forma compreender os processos de nossa miséria é uma forma de ter coragem”.
Maia advoga, ainda, que a filosofia, que como apregoa Aristóteles, nasce do espanto, é um instrumento valioso para a navegação do ser humano pela existência. É ela, salienta, que faz com que o indivíduo saia da condição de ignorância e parta em direção ao conhecimento. “É esse espanto que o faz deixar de ser indiferente à realidade que o circunda e que muitas vezes o oprime”.
Ao estabelecer uma comparação entre a filosofia e o comportamento questionador de uma criança, Maia observa que “é o olhar inocente e aberto em relação ao mundo que faz com que uma criança pare tudo o que está fazendo e, espantada, aponte para o céu quando passa um avião”. Para ele, a filosofia tem a capacidade de nos devolver essa aptidão em meio à turbulenta rotina que nos tolhe esse olhar inocente e aberto.
Estética rodriguiana
“Histórias que um Pessimista Contaria a Seus Netos se Tivesse Decidido Ter Filhos” serve fundamentalmente a esse propósito. O livro é uma leitura muito espirituosa, concatenada com angústias modernas e ressonantes nos mais variados públicos. Embora objetivo e acessível, cheio de insights valorosos, arroubos de humor e outros de espanto genuíno, uma cadência de pesar acompanha o livro. O pessimismo é tão palpável e voraz que nos consome e torna a introspecção necessária. E isso de maneira alguma depõe contra o livro, apenas reforça sua vocação ao choque entre mentalidade e espírito; entre o status quo e os desejos íntimos e secretos.
Os contos de Maia em sua maioria ostentam um componente rodriguiano, na estética e na moral, mas são pincelados como por um romancista formado na escola shakespeariana. Trata-se de um livro muito prazeroso intelectualmente, embora possa apresentar certo ônus a pessimistas – sejam eles convictos ou em formação.
A opção pelos contos, reitera, se subscreve a essa assertividade, a essa urgência que o gênero preconiza, bem como à objetividade da decupação que oferece ao leitor. “Considerando a própria natureza do universo que eu quis retratar, isto é, o universo miserável de homens e mulheres comuns, enredados na lufa-lufa da vida cotidiana nos grandes centros urbanos, julguei que a forma que melhor se adaptaria a essa atmosfera seria uma forma mais breve, que contivesse em si mesma um senso de urgência, que pudesse criar identificação e ao mesmo tempo tirar o público do torpor próprio à sua condição”.