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“Setembro 5” é um filme sobre a responsabilidade atemporal do jornalismo – e sobre editar

Redação Culturize-se

Foto: Divulgação

Hansjörg Weißbrich, o aclamado editor por trás do envolvente drama jornalístico “Setembro 5”, começou sua carreira com aspirações bem distantes do mundo do cinema. Natural da Alemanha, Weißbrich mudou-se para Paris para estudar e trabalhar como professor assistente, planejando ensinar música e francês. No entanto, um emprego de meio período como projetista em um pequeno cinema de arte mudou o curso de sua vida.

O cinema permitia que ele assistisse a filmes gratuitamente, uma cortesia profissional que acendeu sua paixão pelo cinema. “Eu não tinha dinheiro e assistia a dois ou três filmes por noite. Depois daquele ano, minha paixão pelo cinema era tão grande que decidi procurar empregos na indústria cinematográfica”, recorda Weißbrich em entrevista à MovieMaker Magazine. Ele acabou encontrando sua vocação na sala de edição, onde descobriu uma profissão que combinava seu amor por narrativa, ritmo e estrutura.

O primeiro grande projeto de edição de Weißbrich foi a comédia romântica de 1995 “Nach Fünf im Urwald”, que se tornou um sucesso estrondoso e lançou a carreira de Franka Potente, posteriormente conhecida por “Corra Lola Corra” e “A Identidade Bourne”. Ao longo das décadas, Weißbrich trabalhou em inúmeros projetos, mantendo uma conexão com o produtor Thomas Wöbke, que há muito imaginava um filme sobre o massacre das Olimpíadas de Munique em 1972. Essa visão acabou se materializando em “Setembro 5”, em cartaz nos cinemas brasileiros e indicado ao Oscar de Roteiro Original.

A obra se concentra nas decisões jornalísticas tomadas durante os trágicos eventos daquele dia, quando membros de um grupo terrorista pró-Palestina mataram 11 atletas israelenses.

O filme se desenrola quase inteiramente dentro de um estúdio da ABC Sports, capturando as decisões tensas e em tempo real do executivo da ABC Roone Arledge (interpretado por Peter Sarsgaard) e sua equipe, incluindo a intérprete Marianne Gebhardt (Leonie Benesch) e o produtor Geoff Mason (John Magaro). Weißbrich, que tinha apenas cinco anos quando do episódio, cresceu profundamente ciente de seu impacto na história alemã. “É algo muito presente na Alemanha”, diz ele.

Embora os eventos tenham sido explorados em filmes como o documentário vencedor do Oscar “Um Dia em Setembro” e “Munique”, de Steven Spielberg, Weißbrich deliberadamente evitou assisti-los para garantir que “Setembro 5” parecesse fresco e distinto. O filme se destaca ao focar no jornalismo, destacando como decisões instantâneas em situações de notícias urgentes podem levar ao caos e até colocar vidas em risco.

“Setembro 5” é tanto sobre edição quanto sobre jornalismo. Desde seus primeiros momentos, o filme explora o poder das escolhas editoriais—o que mostrar, quando e como. Weißbrich enfrentou o desafio de equilibrar os dois tons do filme, como um drama emocional e um thriller de alta tensão. “Você realmente experimenta o filme como a equipe de notícias—ao vivo e na posição de tomar grandes decisões morais em um momento em que não havia precedentes”, explica ele. A edição do filme reflete o estresse e a urgência das decisões reais da equipe da ABC, imergindo os espectadores na tensão da sala de controle.

Um dos desafios mais significativos de Weißbrich foi integrar imagens de arquivo do repórter da ABC Jim McKay, que ganhou dois Emmys por sua cobertura da tragédia. A reportagem em tempo real de McKay era central para a história, mas os cineastas optaram por não escalar um ator para interpretá-lo, usando em vez disso as imagens originais. Essa decisão limitou as opções de edição de Weißbrich, já que ele só tinha uma única tomada da transmissão ao vivo de McKay para trabalhar. “Há uma certa limitação em termos de edição porque, se eles cortam nas imagens originais para algo mais, não temos Jim McKay falando”, observa Weißbrich. No entanto, essa restrição foi incorporada ao roteiro desde o início, permitindo que a equipe contornasse o problema de forma criativa.

O filme também destaca as limitações tecnológicas das transmissões dos anos 1970, contrastando fortemente com o acesso instantâneo à informação que temos na atualidade. “Hoje em dia, você simplesmente pega seu celular e é tão fácil. Mas eles tinham que enviar as filmagens, trazê-las de volta. Tinham que revelá-las. Era tão complicado e levava tanto tempo”, explica Weißbrich. O filme até retrata um membro da equipe da ABC se disfarçando de atleta olímpico para contrabandear filmagens para dentro e fora da Vila Olímpica—um testemunho dos esforços que os jornalistas fizeram para relatar a história.

O background musical de Weißbrich desempenhou um papel crucial na definição do ritmo do filme. Ele inicialmente usou trilhas temporárias de outros filmes para guiar suas edições, mas o compositor Lorenz Dangel se juntou ao processo cedo, permitindo uma interação dinâmica entre edição e trilha sonora. “Esse vai e volta foi um pouco desafiador, mas é um bom processo”, diz Weißbrich. Essa colaboração garantiu que o ritmo e os momentos emocionais do filme estivessem perfeitamente alinhados com sua trilha sonora.

Em “setembro 5”, Weißbrich retornou, de certa forma, à sua ambição original de ensinar—desta vez através do meio do cinema. Ao revisitar um momento paradigmático no jornalismo e na história, ele oferece uma lição atemporal sobre o poder e a responsabilidade da narrativa, lembrando ao público a relevância duradoura desses eventos no cenário midiático acelerado de hoje.

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