Redação Culturize-se

O mercado de arte contemporânea brasileira passa por uma fase de transformações significativas com a fusão entre a galeria Almeida & Dale e a Millan. A aquisição, já esperada por frequentadores assíduos das exposições paulistanas, representa uma mudança expressiva no cenário das artes visuais do país. A tradicional Millan, que ao longo das décadas abrigou artistas de renome como Amilcar de Castro, Tunga e Maxwell Alexandre, agora será incorporada sob a marca Almeida & Dale, consolidando a expansão de uma das galerias mais influentes do Brasil.
Os fundadores da Millan, André Millan e Socorro de Andrade Lima, permanecem em cargos de direção artística e comercial, respectivamente. No entanto, o comando efetivo está agora sob Hena Lee, João Marcelo de Andrade Lima, Antônio Almeida e Carlos Dale. A mudança, embora represente um fortalecimento econômico para a nova estrutura, tem gerado apreensão entre artistas e colecionadores que valorizavam o caráter autoral da antiga Millan.
A fusão também está acompanhada de um movimento de expansão. Os espaços expositivos na Rua Fradique Coutinho, localizados entre Pinheiros e Vila Madalena, serão ampliados com a aquisição de um novo prédio na região. Além disso, Almeida & Dale planeja abrir uma sede em Paris, reforçando sua presença internacional. A nova unidade deverá se estabelecer em uma área central da capital francesa, consolidando a inserção da arte brasileira no circuito europeu.
Pontapé em 2025
Enquanto a fusão das galerias gera discussões sobre o futuro da cena artística, exposições individuais continuam a movimentar o calendário cultural. Um dos destaques recentes é a artista Ava Rocha, conhecida por sua trajetória na música e sua abordagem multidisciplinar. Ava inaugura a mostra dentro de fora de dentro na antiga Millan, trazendo uma instalação que mescla diferentes expressões artísticas. O projeto, que parte de um poema da própria artista, visa romper a rigidez do espaço expositivo e criar uma atmosfera onírica e interativa. A exposição inclui uma performance ao vivo, reforçando o aspecto performático e sensorial de sua obra.
A artista, que também tem experiência no cinema e na literatura, traz uma pesquisa que busca conectar mito e cotidiano, artista e espectador. A abordagem reflete sua trajetória musical, marcada por discos premiados como Ava Patrya Yndia Yracema e Trança, além de colaborações internacionais que ampliaram seu alcance artístico.

Outra iniciativa relevante que se desdobra no espaço da Millan é Calambur, projeto que une os artistas Guga Szabzon e Thomaz Rosa sob a curadoria de Cristiano Raimondi. A mostra, fruto de um ano de colaboração entre os artistas, estabelece um diálogo visual através da troca de referências e da criação conjunta de obras. Um dos trabalhos em destaque, Só não sei se continuo (2024), materializa essa interação ao projetar as sombras dos dois artistas sobre feltro, resultando em uma pintura colaborativa.
Além das obras individuais, Calambur incorpora um elemento lúdico com a peça Quicada (2024), uma mesa de pingue-pongue coberta por traços e formas criadas pelos artistas. A instalação convida o público a explorar o conceito de movimento e interação, transformando a exposição em uma experiência dinâmica. O projeto também resultou em um zine criado em colaboração com o designer Pedro Alencar, que reflete as influências compartilhadas pelos artistas.
A fusão entre Almeida & Dale e Millan, aliada a exposições inovadoras como as de Ava Rocha e Calambur, reflete um momento de transição e expandidas possibilidades para a arte contemporânea brasileira. Se, por um lado, a consolidação de grandes galerias gera debates sobre a independência criativa dos artistas, por outro, iniciativas como essas evidenciam que a produção artística segue em constante diálogo, promovendo novas formas de experiência e expressão.