Na mesa que dividiu com a jornalista Patrícia Mello os principais temas foram a difusão do ódio nas redes sociais e o estímulo à leitura
Aline Viana
O youtuber e empresário Felipe Neto e a jornalista Patrícia Campos Mello formaram uma das mesas mais aguardadas do evento nesta sexta-feira (11). E entregaram tudo o que o público aguardava.
Logo no início, Neto declarou que não havia sido convidado “só pelo meu número de seguidores, mas pela repercussão da obra [o livro “Como enfrentar o ódio”, editora Companhia das Letras] e pelo clube [do livro]”.
Muita água já passou desde que Felipe Neto se dedicava a se opor a partidos políticos considerados de esquerda. Hater profissional arrependido, Felipe compreende os mecanismos que galvanizam as massas contra pautas, políticos, e pessoas nas redes sociais. É sobre isso seu livro, que tem performado muito bem, obrigado, na lista de mais vendidos desde o seu lançamento há alguns meses.

Mello e Neto discutiram a fundo a cobertura por parte da imprensa da política e das eleições diante do fenômeno das redes sociais, cujos algoritmos e inteligências artificiais criam bolhas, ocultam notícias e canibalizam as empresas jornalísticas.
Para Mello, a checagem em tempo real das declarações dos candidatos, por exemplo, ajudaria a impedir a viralização de notícias falsas, ferramenta básica da cartilha de Donald Trump e seus seguidores.
Neto chamou a atenção para o fato de que as big techs possuem interesses políticos e não têm nenhum constrangimento em usar seus algoritmos para conquistá-los, sendo Elon Musk o caso mais eloquente para nós brasileiros.
O youtuber defende que haja regulamentação do setor por não acreditar numa eventual autorregulação, pois esta necessariamente iria limitar os lucros astronômicos das empresas. E não será a explosão de ódio a minorias, contra as mulheres, outras religiões ou à esquerda que irá sensibilizar companhias que atuam em escala global.
Agora já a caminho dos 40 anos, Felipe Neto começou a se questionar sobre a própria responsabilidade social e resolveu se tornar uma espécie de Robin Hood brasileiro. Em sua autocrítica, citou como maior arrependimento a campanha publicitária que fez para bets: “Considero o maior erro da minha vida”, declarou Neto”. E assumiu como missões se contrapor à desregulamentação das redes sociais, à jogatina (bets e cassinos) –- e ao liberalismo econômico, ao mesmo tempo que se compromete a fomentar a leitura.
De volta aos livros, Neto contou sobre seu trauma de ter lido “José de Alencar aos treze anos: “Aquilo me traumatizou tanto – foi ‘Senhora’ que eu tive de ler – e aquilo nem foi tão difícil (…) A criança precisa ser introduzida ao mundo da literatura para despertar paixão e não hábito, [sem essa mudança de perspectiva] a gente também não vai conseguir isso”. Para ele a palavra “hábito” remete a coisas desagradáveis, que tendemos a evitar, como “malhar e correr”. “A leitura não é hábito, a leitura é prazer, é paixão, é sentimento! Não pode ser um hábito! Tem que ser um hobby das pessoas, têm que ser um prazer e isso a gente tem que conseguir começando na escola”, praticamente gritou Neto para a plateia, sendo imediatamente ovacionado.
Perguntado pela mediadora Fabiana Moraes sobre o seu clube do livro, Neto revelou que mais de 80% do público é formado por mulheres e com idade média de 34 anos.
Ainda nesse tema, Moraes citou que a Agência Pública apontou que houve um aumento de 450% nos casos de misoginia cibernética. E que uma pesquisa da Universidade de Stanford (EUA) apontou que há uma lacuna ideológica de gênero entre homens e mulheres, sendo que elas estão mais conectadas a um campo mais progressista, enquanto os primeiros estão mais ligados ao conservadorismo e à extrema direita. Nas recentes eleições para as câmaras municipais, foi perceptível, segundo Moraes, esse mesmo fenômeno no Brasil.
É importante lembrar agora que Mello foi alvo de ataques misóginos por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores, que renderam o livro “A máquina do ódio – Notas de uma repórter sobre fake news e violência digital” (editora Companhia das Letras).

Em sua resposta, Mello traçou uma análise de como a tendência de crescimento da misoginia está sendo capturada pela política: “Os homens jovens são o eleitorado chave do Donald Trump. O fato de você ter um líder político que é abertamente racista, homofóbico e misógino faz com que parte desse eleitorado de direita se sinta liberado para poder ser assim. Por isso que me pega falar em liberdade de expressão quando a liberdade de expressão é um conceito sequestrado pela direita para dizer ‘eu posso ser misógino, racista etc.’. Eu posso dizer, você sabe, qualquer mulher sabe que na internet você ser mulher – ser mulher preta é mais grave ainda – te torna um alvo. Você é um profissional e críticas são necessárias. O leitor, no nosso caso, é patrão. Tá ruim o trabalho? Fala, tá uma porcaria, mas não é isso que falam. Você é gorda, você é feia, você é velha, não é uma crítica ao trabalho e isso não está correto. Mas, para uma juventude de extrema direita, isso é libertador”.
Para Felipe Neto, esse comportamento masculino vem de uma somatória de fatores. Hoje, diz Neto, “o sistema da extrema direita vitimiza a mulher. O sistema todo montado do neofascismo vai ter como alvo a mulher e o homossexual. O fascismo tem a caraterística de ser moldável. (…) Hoje, o que o fascismo tem como lema, ainda as mesmas palavras da década de 1940: Deus, pátria e família. Eles defendem a inferiorização e a dominância do grupo que precisa estar no poder: o homem branco, hétero e cisgênero. (…)”. A mulher que se alia a esse projeto, ela se torna inimiga, “não é alguém que pensa diferente, é alguém que a gente precisa destruir”, analisa Neto. A resistência das mulheres a visão de mundo, portanto, é compreensível para o autor.
Felipe retomou a informação sobre os dados do clube de leitura e fechou a discussão ao lembrar que as mulheres se dedicam mais à leitura e aos estudos, tornando-se assim menos suscetíveis a protagonizar o ódio online.