Indicado a três Oscars, filme cativa tanto pela narrativa como pela sua forma. O mais impactante, porém, é a mensagem que apresenta
Redação Culturize-se

“Sing Sing” rapidamente conquistou a crítica e o público com sua abordagem sensível e transformadora sobre o poder da arte dentro do sistema prisional. Indicado a três categorias do Oscar, incluindo Melhor Ator para Colman Domingo, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original (“Like a Bird“), o longa dirigido por Greg Kwedar mergulha no universo do programa Rehabilitation Through the Arts (RTA), uma iniciativa real que utiliza o teatro para ressocializar detentos.
A trama acompanha Divine G (interpretado por Colman Domingo), um homem condenado injustamente que, ao entrar no RTA, reencontra sua paixão pelas artes e descobre um novo propósito. Ao lado de outros detentos, como Clarence “Divine Eye” Maclin, ele participa da encenação de peças clássicas e autorais, utilizando o teatro como uma ferramenta de expressão e redenção. O impacto do programa é evidente: enquanto a média nacional de reincidência nos presídios dos Estados Unidos ultrapassa os 60%, entre os participantes do RTA esse número é inferior a 5%.
O próprio diretor Greg Kwedar conheceu o RTA por acaso, em 2016, ao ajudar um amigo na produção de um curta documental dentro de uma prisão de segurança máxima. Sua percepção sobre o sistema prisional mudou radicalmente ao ver um detento cuidando de um cão resgatado dentro da cela – um programa de reabilitação para ambos. Esse momento o levou a pesquisar outras iniciativas dentro das penitenciárias americanas, culminando na descoberta do RTA e na inspiração para “Sing Sing”.
A fagulha para a narrativa veio a partir de um artigo da revista Esquire, que relatava a encenação de Breakin’ the Mummy’s Code, um musical original criado pelos próprios detentos do programa. A justaposição entre o ambiente prisional e a leveza de uma comédia intrigou Kwedar, que viu ali uma oportunidade de contar uma história sobre a capacidade de transformação de indivíduos frequentemente estereotipados ou esquecidos pela sociedade.
A construção da narrativa
Para garantir autenticidade à história, Kwedar e o roteirista Clint Bentley mergulharam em pesquisas aprofundadas e trabalharam lado a lado com ex-participantes do RTA. Divine G e Divine Eye foram peças fundamentais na construção do roteiro, contribuindo com suas experiências pessoais e trazendo à tona camadas emocionais e realistas que enriquecem a trama.
Divine G, condenado injustamente, já possuía uma relação com as artes antes da prisão, mas havia abandonado esse caminho devido ao bullying que sofria em sua vizinhança. Na penitenciária, reencontrou sua paixão pela escrita e pelo teatro, o que lhe deu forças para seguir lutando por sua liberdade. Por outro lado, Divine Eye era um verdadeiro “lobo solitário”, envolvido com extorsões e tráfico dentro da prisão. Sua visão sobre o teatro mudou ao assistir a uma apresentação do RTA e perceber que os outros detentos podiam expressar suas emoções sem receio de serem considerados fracos. Ele viu que aqueles homens tinham famílias e sentimentos semelhantes aos seus, o que o levou a uma transformação pessoal profunda.
O elenco do filme é um de seus grandes trunfos. Além de Colman Domingo, que entrega uma performance poderosa e recebeu sua segunda indicação consecutiva ao Oscar após “Rustin”, “Sing Sing” conta com a presença de ex-detentos e membros do RTA, como Clarence “Divine Eye” Maclin e Jon-Adrian “JJ” Velazquez. A decisão de incluir esses atores confere uma autenticidade única ao longa, tornando a experiência ainda mais impactante para o público.
Fuga dos clichês
Diferente de outras narrativas que exploram o ambiente prisional, “Sing Sing” evita a abordagem tradicional de violência e sofrimento extremo. A escolha de Kwedar e Bentley foi retratar o presídio de maneira mais humanizada, destacando a organização e os laços de apoio formados entre os participantes do RTA. Esse olhar diferenciado é reforçado pela fotografia de Pat Scola, que utiliza película de 16 mm para conferir textura e delicadeza às cenas.
Outro aspecto interessante da produção foi o tratamento equitativo dos profissionais envolvidos. Desde os cargos mais altos até os mais baixos, todos receberam o mesmo salário, uma iniciativa que a equipe espera levar para projetos futuros.
A trilha sonora, embora às vezes enfatize de maneira excessiva os momentos inspiradores, contribui para a atmosfera emocional do filme. “Like a Bird”, canção original composta por Abraham Alexander e Adrian Quesada, do Black Pumas, recebeu uma indicação ao Oscar e se destaca como um dos momentos mais tocantes do longa.
Além do sucesso nas premiações e da aclamação crítica, “Sing Sing” fez história ao se tornar o primeiro filme a ser lançado simultaneamente nos cinemas e em prisões. Nos Estados Unidos, a estreia ocorreu em parceria com a A24, o RTA e a ONG Edovo, que desenvolve currículos para presos acessarem via tablets em mais de 1.100 instituições correcionais do país. Esse lançamento inovador reflete a própria mensagem do filme: a arte deve ser acessível a todos e pode ser uma ferramenta poderosa de transformação social.
Brent Buell, voluntário do RTA por mais de uma década e interpretado no filme por Paul Raci (“O Som do Silêncio”), destacou como o teatro dentro da prisão se tornou um espaço de pertencimento para muitos detentos. Ele menciona que se sente “muito mais em casa dentro da prisão do que em um palco em Nova York” e se questiona por que não começou esse trabalho antes, tamanha a sua relevância.

O teatro, dentro do contexto prisional, assume um papel que vai além do entretenimento. Ele se torna um meio de expressão, um espaço de aprendizado e, principalmente, um instrumento de empatia. O RTA permite que os detentos desenvolvam habilidades interpessoais, reflitam sobre suas trajetórias e construam um novo olhar sobre si mesmos e sobre os outros.
Em “Sing Sing”, esse poder transformador se manifesta de forma sutil e poderosa. Desde a escolha do elenco até a construção da narrativa, tudo converge para mostrar que a arte pode resgatar identidades e oferecer novas perspectivas de vida. Divine G e Divine Eye são exemplos vivos dessa mudança: suas jornadas pessoais, repletas de desafios, encontraram no teatro um caminho para a ressignificação de suas histórias.