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O que a ascensão e queda de “Emilia Pérez” diz sobre o Oscar

Por Reinaldo Glioche

Quando estreou no Festival de Cannes 2025, de onde saiu com o Prêmio do Júri e o Prêmio de Atriz, dividido entre as quatro atrizes do filme, “Emilia Pérez” foi incensado por sua ousadia, sensibilidade e profunda imaginação – além do fato de ser protagonizado (e estrelado) por uma mulher trans. Para se ter uma ideia do alvoroço causado pela ópera megalomaníaca de Jacques Audiard na Riviera francesa, é muito raro que um filme ganhe mais de uma Palma no festival.

Entre Cannes e o Oscar, o momentum do filme só aumentou com a participação em festivais outonais e destaque nos prêmios precursores. Um recorde de 10 indicações no Globo de Ouro, o qual venceu nas categorias de Filme Internacional e Filme em Comédia/Musical, presenças fortes no Bafta, SAG e Critic´s Choice Awards.

O longa chegou ao Oscar na condição de líder de indicações. Suas 13 nomeações, o maior número na história para um filme não falado em inglês, dão o tom da adesão da indústria a um musical corajoso e insuspeitamente delicado.

Como acontece todo ano – principalmente com favoritos e líderes na corrida – a campanha difamatória se fez presente. O ódio ao filme, emanado fundamentalmente das redes sociais brasileiras – a concorrência com “Ainda Estou Aqui” é uma das razões, mas não a única-, foi potencializado por tweets polêmicos da protagonista do filme, a atriz Karla Sofia Gascón resgatados e amplamente debatidos por uma mídia carniceira que não se furta a abastecer a cultura do cancelamento.

Sem entrar no mérito dos tweets em si, está patente que a reação a eles foi desproporcional – e isso diz muito sobre nossa sociedade. Rapidamente a celebração e hype em torno da primeira mulher trans indicada a um Oscar de atuação se tornou um pesadelo de relações pública raramente visto no Oscar.

Gascón não era favorita ao Oscar de atriz, mas é inegável que a aversão a ela mina as chances do filme, que eram fortes, em outras categorias. Além do mais, como a própria trajetória do longa na temporada sugere, o Oscar – que mimetiza a indústria – é um prêmio de paixões, de momento e sem sombra de dúvidas não é o momento de “Emilia Pérez”.  

A Netflix, que distribui o filme nos EUA afastou-se da atriz e a retirou de todo o material promocional com vistas ao Oscar, ela também não irá comparecer aos prêmios que ocorrem nas próximas duas semanas em Hollywood. Não é sabido se irá ao Oscar, mas é provável que não vá.

EMILIA PÉREZ
A atriz Karla Sofia Gascón em cena do filme: Do céu ao inferno | Fotos: divulgação

O Oscar no divã

O Oscar é uma campanha política. Escarrada e cuspida. Portanto, há fake News, intrigas e toda sorte de desinformação e difamação. Foi Harvey Weinstein, na década de 90, quem sofisticou esse mecanismo. Este é o principal legado do hoje defenestrado mega produtor.

O declínio de “Emilia Pérez” na temporada demonstra que investir na destruição da reputação de filmes – e esse era um que apelava à cultura woke – ainda é uma estratégia não só viável como recompensadora. Ainda que seja improvável que o filme saia de mãos vazias da noite de 2 de março – se isso acontecer ele se tornará o maior derrotado da história – é fato que sua performance já foi comprometida severamente.

O que ajuda a candidatura de “Ainda Estou Aqui” em Filme Internacional. Embora tenha 10 indicações a menos, o filme brasileiro também figura entre os indicados a Melhor Filme, o que facilita a troca por um candidato mais cândido e afável – e que conta com o apoio das redes sociais em larga escala.

Não implica dizer que “Emilia Pérez” é o melhor filme, mas a distorção na corrida pelo Oscar parece maior à medida que campanhas apostam cada vez mais em vieses negativos como forma de destituir concorrentes. Em um prêmio que se preocupa em ser relevante, tanto no escopo artístico como na esfera social, é um diagnóstico sombrio.

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