Redação Culturize-se
A partir de 22 de fevereiro, o Instituto Moreira Salles (IMS) Paulista recebe Beleza Valente, primeira retrospectiva no Brasil da fotógrafa e ativista visual sul-africana Zanele Muholi. Com mais de 100 obras, a mostra celebra a trajetória de Muholi, que documenta e exalta a comunidade negra LGBTQIAPN+ por meio da fotografia.]

A exposição, com curadoria de Daniele Queiroz, Thyago Nogueira e Ana Paula Vitorio, apresenta séries icônicas como Faces e Fases (Faces and Phases), Somnyama Ngonyama e Bravas Belezas (Brave Beauties), além de trabalhos inéditos produzidos no Brasil em 2024. Muholi estará presente no dia da abertura para uma conversa com o público e uma sessão de autógrafos do catálogo da mostra.
Arte como resistência
Nascida em 1972, em Umlazi, durante o apartheid, Muholi usa a fotografia para confrontar preconceitos e registrar a história de sua comunidade. Seu trabalho começou com a denúncia da violência contra pessoas negras e LGBTQIAPN+ na África do Sul. Com o tempo, passou a focar em retratos e autorretratos que subvertem narrativas coloniais e reafirmam a identidade negra.
A série Somnyama Ngonyama, iniciada em 2012, é um exemplo desse processo. Nos autorretratos, Muholi utiliza objetos do cotidiano para criar imagens carregadas de simbolismo. Em uma das fotografias, veste pneus de bicicleta vazios, remetendo à resistência negra nas townships sul-africanas durante o apartheid. A série continua em expansão e inclui registros feitos durante sua residência artística em São Paulo.
Outro destaque é Faces e Fases, iniciada em 2006, que reúne retratos de pessoas negras lésbicas, trans e não binárias ao longo dos anos. O projeto não apenas registra mudanças individuais, mas constrói uma memória coletiva. Segundo Muholi, nomear e arquivar essas histórias é uma forma de resistência contra a invisibilização.
Diálogo entre Brasil e África do Sul
Além das séries consagradas, Beleza Valente exibe fotografias inéditas produzidas em 2024 no Brasil. Durante sua passagem pelo país, Muholi conheceu organizações LGBTQIAPN+ e participou do Festival ZUM. Essa troca cultural reforça os paralelos entre as lutas por direitos no Brasil e na África do Sul.
A curadoria destaca que Muholi rompe com padrões tradicionais de gênero e beleza ao retratar seus personagens em suas próprias roupas e poses escolhidas. “Sua obra valoriza a beleza comum, cotidiana e comunitária, transformada em experiência extraordinária”, afirma a equipe curatorial.

Uma exposição essencial
A retrospectiva ainda inclui trabalhos iniciais de Muholi, como Only Half the Picture, que documenta vítimas de violência de gênero, e Being, série que registra casais negros LGBTQIAPN+ em momentos íntimos. Além das fotografias, a exposição traz vídeos, pinturas, esculturas e uma linha do tempo da luta por direitos LGBTQIAPN+ no Brasil e na África do Sul.
Em cartaz até 23 de junho, Beleza Valente convida o público a conhecer a potência da obra de Muholi. Como afirma a própria artista: “Quero projetar publicamente, sem vergonha, que somos indivíduos ousados, negros, belos e orgulhosos”.