Edson Aran
O ministro chegou desesperado à sala do presidente.
“Presidente, presidente, a casa caiu pra ti!”
“Como assim, companheiro ministro?”, respondeu o mandatário da Nação. “Nunca antes na história desse país, o povo foi tão feliz!”
Nesse momento, a primeira-dama entrou dançando ao escritório do marido.

“Ilari, lari, lariê, ôôôô, ilari, lari, lariê, ôôôô…”, ela cantou enquanto agitava os braços alegremente entre os dois homens.
Acostumado com as festivas intervenções primeiro-damistas, o ministro não interrompeu o raciocínio.
“Sei disso, presidente, mas sua popularidade está caindo mais rápido do que o valor do real. Sua rejeição cresce mais do que o aumento de impostos. Sua aprovação é menor do que a credibilidade do IBGE. Tá ficando difícil.”
“Fala com o companheiro marqueteiro, ué. Eu contratei o sujeito justamente pra resolver essas coisas, pô. Diz pra ele inventar um meme!”
A primeira-dama passou novamente dançando entre os dois: “Tá na hora, tá na hora, tá na hora de brincar, pula pula, bole bole, se embolando sem parar…”
O ministro fez que não viu.
“O companheiro marqueteiro até fez um meme pra defender o governo, mas todo mundo estava vendo BBB e não deu bola…”, explicou ele.
“Malditas redes sociais! É só Fake News e notícias falsas. Elas estão tudo à serviço do neo-nazifascismo troglodita de extrema-direita. Olha, vou te contar uma coisa, companheiro ministro: nem se Jesus Cristo fosse eu, ele ia conseguir fazer sucesso hoje em dia…”
“Fuquiú, Elon Musk!”, gritou a primeira-dama e depois retomou a cantoria: “Dá um pulo, vai pra frente, de peixinho, vai pra trás, quem quiser brincar com a gente, pode vir, nunca é demais…”
“O problema, presidente”, prosseguiu o ministro, “é que se continuar assim não vai ter reeleição…”
“Ah, aí a coisa pega, companheiro! Aí a coisa pega. O povo pobre desse país precisa entender que nunca antes na história desse país teve presidente desse país igual eu! Eles tem que saber que é pra votar ni mim.”
“Sei de tudo isso, presidente. Eu recebi o memorando da Secom falando que o senhor é o maior estadista do planeta Terra…”
“Estadista não, companheiro! Esta-TIS-ta!”
“Ah, ok. Tanto faz. Mas, olha, pra ser bem sincero, só vejo um jeito do senhor subir nas pesquisas e ganhar a eleição…”
“Cortar despesas, eu já falei que não vai dar. A primeira-dama só quer saber de coisa chique.”
“Iralari, lari, lariêê, ôôôô, ilari, lari, lariêêê, ôôôô, concordou a grande esposa do grande líder.
“Eu jamais ia sugerir um absurdo desses, presidente. Estava pensando em outra coisa. E se a gente pedir pro Alexandre de Moraes deixar o Bolsonaro concorrer? Do Bolsonaro, qualquer um ganha. Até o capeta ganha!”
“Ah, isso vai ser impossível, companheiro ministro”, respondeu o presidente. “O capeta entrou pra base do governo e vai sair de deputado só pra apoiar minha candidatura…”
“Ilari, lari, lariêê, ôôôô, ilari, lari, lariêêê, ôôôô”, cantarolou a primeira-dama para finalizar a janjada.