Reinaldo Glioche
É inegável que “Ainda Estou Aqui”, concorrente brasileiro a uma vaga no Oscar, e “Baby”, que integrou a seleção de Cannes e acabou de ser premiado no Festival do Rio, são as grandes atrações da seleção brasileira – formada por 60 títulos – que compõe a 48ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas passam longe de serem as únicas.
Um desses filmes é “Um Dia Antes Antes de Todos os Outros”, de Fernanda Bond e Valentina Homem, que traz uma reflexão profunda sobre as relações de cuidado entre mulheres. O roteiro, assinado pelas próprias diretoras em colaboração com o renomado dramaturgo brasileiro Jô Bilac, gira em torno de Marli (interpretada por Clarissa Pinheiro), uma empregada doméstica que, após 20 anos de trabalho, descobre que o apartamento onde trabalha foi vendido. Com isso, ela se vê diante da possibilidade de voltar para sua terra natal, enquanto sua patroa Iara (interpretada por Elvira Helena) está prestes a ser transferida para um asilo.
Marli cuida de Iara na ausência do filho da patroa. Iara, por sua vez, ajudou Marli a cuidar de Sofia na falta de um pai. Jane, melhor amiga de Marli, cuida do bebê dos vizinhos e passou a cuidar de Sofia quando Marli foi morar com Iara por conta da pandemia. O filme entrelaça dinâmicas de cuidado e de ausência dele, focando no afeto entre as personagens.

Outro destaque – e título fantástico – é “Enterre Seus Mortos”, o novo longa de Marco Dutra ( “As Boas Maneiras” e “O Silêncio do Céu”), que já excursionou por festivais fora do País. No longa, Selton Mello interpreta Edgar Wilson, homem soturno que trabalha como removedor de animais atropelados em estradas; seu colega de trabalho é um padre excomungado, Tomás (Danilo Grangheia). O protagonista namora Nete (Marjorie Estiano), sua chefe e quem lhe passa as chamadas das ocorrências. O cenário é a fictícia Abalurdes, pequena cidade marcada por acontecimentos peculiares e um clima de apocalipse iminente. Porém, chega um momento em que Edgar é obrigado a violar as regras do seu trabalho e o caos passa a imperar em sua vida e na cidade.
“Mambembe”, novo longa de Fábio Meira (“Tia Virgínia”) é outro destaque da Première Brasil em 2024. A trama apresenta um topógrafo errante e seu encontro com três mulheres de um circo mambembe. A partir disso, há um entrelaçamento entre ficção e documentário e como o acaso reflete na construção artística de cada um. O filme começou a ser gravado há 15 anos, após Meira finalizar o curso de cinema em Cuba.
Premiado no Festival do Rio, “Malu” flagra a personagem-título (Yara de Novaes), uma mulher de meia-idade que teve um passado glorioso, presa em um grande caos existencial. A complexa relação com sua mãe conservadora (Juliana Carneiro da Cunha) e sua filha (Carol Duarte) torna a crise ainda mais aguda, entre momentos de carinho e alegria entre as três.
Uma quinta menção merece ser feita a “Oeste Outra Vez”, grande vencedor do último Festival de Gramado. No sertão de Goiás, homens brutos que não conseguem lidar com as próprias fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros.