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Putin aposta no cinema como propaganda pró-guerra

Redação Culturize-se

Desde que assumiu o poder na Rússia há duas décadas, Vladimir Putin engendrou uma operação propagandística massiva que se estende pela bilionária indústria cinematográfica e televisiva russa – que depende majoritariamente de patrocínio estatal – chegando a uma rede global de desinformação estatal disfarçada de jornalismo e ao misterioso mundo online de adoração mercenária de direita conhecido como Wagnerverse (sim, o multiverso da Marvel deixa lastros até mesmo aqui).

Para ter uma ideia de como as linhas entre os imperativos do estado de segurança e a cultura pop russa se tornaram turvas, basta olhar para “The Best in Hell”, filme lançado em outubro de 2022, e que mostra a luta brutal por território em uma cidade europeia não nomeada. As cenas de guerra urbana são viscerais e cruas, e a única pausa da violência vem na forma de palestras táticas periódicas direcionadas diretamente ao espectador. O filme pode ser visto por completo no YouTube, mas abaixo é possível conferir o trailer com legendas em inglês.

Aleksey Nagin, coautor do roteiro, não era um simples roteirista. Ele era um ex-soldado russo que se tornou mercenário profissional do Grupo Wagner, uma notória empresa militar privada que funciona como uma ala de facto do exército russo. O Wagner é responsável por atrocidades em campos de batalha na Ucrânia, Síria, Líbia e em quase duas dezenas de países africanos. Em 2021, as Nações Unidas acusaram o Wagner de crimes de guerra, incluindo “tortura” e “execuções sumárias”. O grupo tem sido alvo de recriminações e sanções, sem efeito.

Como membro de um dos destacamentos de assalto de elite do Grupo Wagner, Nagin lutou em várias batalhas na Ucrânia e foi ferido várias vezes. Em setembro passado, apenas algumas semanas antes do lançamento de “The Best in Hell”, Nagin estava de volta às verdadeiras linhas de frente, desta vez na cidade ucraniana de Bakhmut, onde os combates continuam. No final de setembro, Nagin foi morto. Após sua morte, o governo russo o premiou postumamente com a mais alta honraria, o Herói da Federação Russa.

“The Best in Hell” e outros filmes semelhantes do Wagner continuam sendo notáveis pelo impacto desproporcional que exercem na crescente guerra da informação. Outro título do Wagner, o filme “Tourist” de 2021, narra as atividades do grupo na República Centro-Africana.

O Joseph Goebbels de Putin

O oligarca russo Yevgeny Viktorovich Prigozhin, grande mente por trás da propaganda de guerra de Putin

Além de Putin, ninguém emergiu como uma força mais poderosa na guerra de informações da Rússia do que Prigozhin. Sua transformação de criminoso e prisioneiro insignificante em senhor da guerra e produtor de filmes é emblemática. Nascido em 1961, Prigozhin foi criado em São Petersburgo. No início dos anos 1980, foi condenado por roubo à mão armada e fraude, passando nove anos em uma colônia penal. Após sua liberação em 1990, ele construiu uma rede de empresas de construção e catering alimentar, acumulando em pouco tempo uma impressionante lista de clientes proeminentes nos mundos da política e dos negócios, incluindo o então futuro presidente, Vladimir Putin.

A estética exibida nos filmes de baixo orçamento do Wagner, adorna uma celebração do sobrevivencialismo, mercenários e artes marciais não asiáticas e tem feito sucesso online. No Wagnerverse, que existe principalmente no Telegram, YouTube e Instagram, fãs da vida de mercenários podem se conectar e até comprar mercadorias – camisetas e emblemas – que celebram isso. Uma comunidade online do Wagnerverse que se autodenomina “Lado Reverso do Metal” é uma plataforma de encontro para os próprios mercenários.

Afastamento do ocidente

Desde o início da guerra na Ucrânia, o cinema russo mingou. A presença em festivais mundo afora diminuiu consideravelmente e as vozes dissonantes do regime Putin ou silenciaram ou deixaram a Rússia em caráter potencialmente definitivo.

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