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“Enxame” apresenta sátira violenta de fãs obsessivos

Nova série do Prime Video mostra comportamentos abusivos de fãs em suspense violento e inesperado

Por Gabriela Mendonça

O que acontece quando um enxame ataca? O resultado pode ser fatal. O “Enxame”, neste caso, é de uma pessoa só, uma jovem que, em meio a sua obsessão com uma estrela do pop, embarca em uma roadtrip sangrenta pelos Estados Unidos. 

A série, lançada no Prime Video na última semana, traz Dominique Fishback como a protagonista Dre, uma jovem com dificuldades para socializar e manter um emprego, que só se importa com duas coisas na vida: sua irmã Marissa (Chloe Bailey) e a cantora Ni’Jah (Nirine S. Brown). 

Criada por Donald Glover e Janine Nabers, a produção apresenta uma sátira de suspense gore aos fãs obcecados que fazem tudo pelos seus ídolos, especialmente nas redes sociais. 

Quem usa ativamente o Twitter já deve ter se deparado em algum momento com o grupo de fãs de um artista, que não poupa esforço para defendê-los, seja quando erram e, principalmente, quando são criticados. 

Reprodução/Prime Video

E é o que acontece em “Enxame”, quando Dre (Fishback) decide fazer justiça com as próprias mãos para proteger Ni’Jah dos insultos virtuais, caçando e matando qualquer pessoa que já tenha falado mal da estrela na internet.

A obsessão com a celebridade permeia a história e oferece os gatilhos que vão colocando a protagonista mais e mais fora do eixo, não só intensificando sua caçada, como fazendo-a, aos poucos, perder a noção da realidade. 

Essa é uma história real

Antes mesmo do episódio começar, as letras já indicam que o que acontece na tela é baseado em eventos reais, e ao longo dos episódios essa dúvida sobre o que pode ou não ter acontecido vai se intensificando.

Em um momento que faz uma referência direta a um marco da cultura pop, Dre finalmente se vê frente a frente com sua ídola e, enquanto fica entorpecida por sua presença, não percebe que a morde.

Beyoncé passou pela mesma situação em uma festa em 2017, e a história acabou sendo revelada pela atriz Tiffany Haddish em uma entrevista. A Queen B é referenciada na figura de Ni’Jah de formas nem um pouco sutis. O visual, o cabelo, até a estética de Renaissance, a coleção de roupas em parceria com a Adidas, a briga no elevador entre Solange e Jay-Z, tudo isso aparece na série. A própria colméia, como são chamados os fãs fiéis da cantora, são citados constantemente. 

Reprodução/Prime Video

Além disso, tanto Glover quanto Nabers já confirmaram em entrevistas que muitos momentos são inspirados em crimes reais. 

Nada disso faria sentido, porém, se Dre não fosse capaz de transmitir repulsa e cativar ao mesmo tempo, e o principal mérito de “Enxame” é a atuação de Dominique Fishback.

Ela faz uma jovem que, hora parece inocente e perdida, hora se entrega à própria psicopatia, tornando a personagem complexa e misteriosa. Em uma mar de programas sobre crimes e ficcionalização de serial killers reais, Dre oferece algo novo, não só pela improbabilidade de uma mulher negra se tornar uma assassina em série, mas pelo método descontrolado, impulsivo. 

Na maior parte do tempo, parece que ela quer ser pega, ou ao menos não se importa se isso acontecer. Depois do primeiro assassinato, ela parece chocada com a própria capacidade de cometer um ato tão grotesco. Se entrega a outra obsessão que vai acompanhá-la em sua jornada, comida, e desenvolve uma relação fantasiosa com Marissa. 

Reprodução/Prime Video

Sua irmã é o grande gatilho que faz com que Dre se desconecte da realidade, e os acontecimentos que a levam por esse caminho parecem fadados a acontecer sem a presença da irmã. Marissa é o oposto de Dre: bonita, comunicativa, está tentando prosperar na carreira, tem um namorado, amigos e vida social. 

Mas ela morre inesperadamente logo no primeiro episódio, deixando Dre sozinha, com a única outra coisa que ela se importa, Ni’Jah. Ao contrário da irmã, porém, ela não é real, não a conhece, não troca nenhum tipo de afeto com ela.  

Em muitos momentos parece que o que Dre busca são aqueles sentimentos mais fundamentais dos seres-humanos: amor, aceitação, uma família. No quarto episódio, ela parece encontrar algo parecido com isso em um grupo de mulheres, lideradas por Eva (Billie Eilish). 

Ela é empática, fala manso, sorri o tempo todo e parece genuinamente interessada em ajudar Dre, e a garota se entrega, mesmo que temporariamente, a esse acolhimento. Mas Dre tem um propósito e Eva está em seu caminho. 

Reprodução/Prime Video

Eilish surpreende com uma atuação igualmente equilibrada entre a simpatia e insanidade de uma líder de culto, e mostra que a série acertou nas participações especiais, que incluem ainda Paris Jackson, Kiersey Clemons e Rory Culkin (em uma cena bem íntima no primeiro episódio). Bailey também se destaca em sua pequena participação, além de fazer pontuais aparições no inconsciente de Dre. 

Perguntas sem resposta

“Enxame” causa certa estranheza, seja pelas poucas palavras da protagonista que rendem incontáveis momentos de mau-estar, ou seu pouco traquejo social, que a coloca em situações que, fossem vividas por nós, nos faria querer enfiar a cabeça em um buraco de tanta vergonha. 

A narrativa também não se prende a fórmulas prontas, nem se propõe a explicar com clareza os movimentos da protagonista. Cabe a nós preencher os vazios, embora o penúltimo episódio ofereça um pouco mais de contexto sobre quem Dre é, e de onde ela vem. 

No episódio sete, “Caindo pelas Brechas” temos, pela primeira vez, algumas explicações sobre seu passado, no momento em que o formato da série se transforma em um documentário, acompanhando a detetive Loretta Greene (Heather Simms) que parece ter conectado os pontos, colocando Dre como a principal suspeita de diversos assassinatos, aparentemente sem relação, que acontecem num curto período de tempo em estados do sul do país. 

Glover e Nabers já trabalharam juntos em “Atlanta”, também criada por Glover. Quem está familiarizado com a outra produção já sabe que o artista gosta de flertar com vários gêneros, trabalhar formatos distintos e episódios descolados da história principal, além de promover o desconforto na cena e nos diálogos. “Enxame” é mais concisa nesse aspecto e “Caindo pelas Brechas”, ainda que ótimo, parece desnecessário para o que a série se propõe. 

Porque o que a série tem de melhor está justamente nesse caos, nessas perguntas sem resposta, nesses momentos que não estão claramente definidos. Dre está alucinando? Ela recebe mensagens da irmã morta? Ni’Jah ama ela? A vida de Dre só funciona quando o real não é claro. 

E, mesmo que tente ter algum tipo de vida normal, sua visão da realidade nunca permitirá que ela seja como os outros. No episódio em que a policial investiga seu caso, ela comenta que o motivo de ninguém conectar Dre com os assassinatos é que as mulheres negras constantemente caem pelas brechas, e são seres invisíveis para a sociedade. 

Dre é invisível, e sempre que ela aparece, todos ao redor se incomodam com ela. A família, o namorado da irmã, as colegas do clube de stripper. Esse é seu grito por socorro, sua forma – cruel e violenta – de mostrar que existe.

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