Jonathan Pereira
A Globo surpreendeu os fãs de novela anunciando, nos intervalos do último capítulo de “Pantanal” na faixa das 21h, a volta de “O Rei do Gado” (1996) no “Vale a Pena Ver de Novo”. A novela (já reexibida em 1999 e 2015, com boa audiência) tornou-se a primeira a ganhar uma terceira reprise dentro da sessão e tem motivo: atemporal, pode ser vista em qualquer época, continuando atual.
Dizer que a primeira fase é primorosa é chover no molhado: o diretor Luiz Fernando Carvalho, supercompetente em seus trabalhos, aproveitou o tempo que teve antes da estreia para dar um esmero estético às cenas raramente visto na televisão. Os atores também tiveram tempo de se preparar, fazendo laboratório em fazendas, junto a boias-frias ou aos sem-terra – e o resultado se viu no ar.



Era de se esperar que essa qualidade não se mantivesse durante tantos meses no restante da história, pela correria e volume de gravações, mas os primeiros capítulos tornaram-se um marco quando se lembra da trama – um “luxo”, como diria a bolha noveleira hoje em dia.
Além de participações de Tarcísio Meira e Vera Fischer nos capítulos que se passavam nos anos 1940, o elenco estelar foi encabeçado por Antônio Fagundes – que já vinha de parceria com o autor Benedito Ruy Barbosa em seu sucesso anterior, “Renascer” (1993) – e o saudoso Raul Cortez, mantendo a rivalidade das famílias Mezenga e Berdinazzi. Mas vários outros brilharam.
Na pele da boia-fria Luana, Patrícia Pillar entregou uma de suas melhores personagens na carreira – junto com a Flora de “A Favorita” (2008), curiosamente antecessora de “O Rei do Gado” na sessão de reprises vespertina, o que nos deu a chance de ver os dois melhores trabalhos da atriz na TV em sequência.
A abordagem dos Sem-Terra para alertar para a necessidade da Reforma Agrária no Brasil foi bem-feita – novelas que trazem algo de sua atualidade costumam se diferenciar – e rendeu boas cenas, sonorizadas por ‘Admiravel Gado Novo’, na voz de Zé Ramalho e vividas, entre outros, por Jackson Antunes e Ana Beatriz Nogueira.
Chamou a atenção também um político honesto em meio aos conchavos que foram escancarados ao longo dos anos e perduram até hoje, infelizmente. A cena em que o senador Caxias (Carlos Vereza), que é incompreendido pela família por não se aproveitar do cargo como a maioria dos colegas, discursa para o Plenário praticamente vazio é emblemática.

Outros ainda caíram nas graças do público, como Léia (Silvia Pfeifer) e o amante Ralf (Oscar Magrini). O ‘Quem matou Ralf?’ ajuda a preencher vários capítulos quando a novela é esticada. Leila Lopes, que se suicidou em 2009, também aparece nesse núcleo como Suzane.
A trama marcou o início de carreira na TV de Marcello Antony, Caco Ciocler, Mariana Lima, Lavínia Vlasak e Emílio Orciollo Neto, que seguiram na ativa. Stênio Garcia e Bete Mendes viveram Zé do Araguaia e Donana, Sergio Reis e Almir Sater formavam a dupla Pirilampo e Saracura, e Yara Jamra teve seu papel mais conhecido em novelas como a empregada Lurdinha.
Mesmo exibida já tantas vezes – além das quatro na TV aberta, também passou na íntegra no canal Viva em 2011 e está disponível completa no Globoplay desde novembro de 2021 – foi ótimo a novela ter voltado, principalmente para afastar rumores de remake, que vêm sendo cogitados após o êxito de Pantanal. “O Rei do Gado” faz jus ao título da sessão: vale a pena ver de novo.