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Exaustão invisível

3 em cada 10 brasileiros sofrem com a síndrome do burnout, uma doença ainda muito invisibilizada e que o janeiro branco tenta iluminar

Por Jéssica Stuque

Um dia Maria Elisa* sentiu como se tivessem arriado a sua bateria. Nada de especial tinha acontecido para justificar o extremo cansaço que lhe abateu. Era uma exaustão que a deixava ofegante apenas por caminhar alguns passos. “Será que estou com depressão?”, perguntava-se ao mesmo tempo em que intuía que era algo diferente. 

Ela acabara de trocar de função devido a uma lesão no joelho. Antes, atuava como terapeuta de intervenção precoce com crianças autistas. Mas as dores que a lesão provocava a impediam de fazer o que mais amava. Passou, então, a integrar a clínica como coordenadora, supervisionando outras terapeutas. 

Foi aí que a coisa toda virou. Suas atividades duplicaram. Ela praticamente não tinha finais de semana, chegou a trabalhar das 8h da manhã até as 2h30 do dia seguinte. O trabalho tomou o seu tempo integralmente e, quando não estava na clínica, estava estudando para melhorar as suas habilidades como coordenadora. Como se não bastasse, passou a sofrer assédio moral da chefe em frente aos colegas. O corpo deu os sinais. 

“Era como se eu estivesse com 0% de bateria, como se tivesse sido desligada da tomada. Eu não conseguia pensar, nem fazer tarefas básicas”, contou Maria Elisa ao Culturize-se.

Foi um médico psiquiatra que confirmou o seu diagnóstico: Síndrome de Burnout.

De acordo com o doutor Nélio Tombini, psiquiatra que assina o livro “Não deixe a vida te maltratar”, o Burnout  “é um distúrbio psiquiátrico que se caracteriza pelo esgotamento físico, mental e psíquico do indivíduo. A dedicação intensa e exagerada à vida profissional, sem que a pessoa tenha momentos de relaxamento, é a principal causa para o desenvolvimento dessa síndrome”. 

O que Maria Elisa estava passando tem atingido milhares de brasileiros. De acordo com o International Stress Management Association (ISMA-BR), o Brasil é o 2º país do mundo com mais casos de Burnout. Em números concretos, a doença atinge 30% dos mais de 100 milhões de trabalhadores, segundo levantamentos da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). Ou seja, 3 em cada 10 brasileiros sofrem com a síndrome. 

Sintomas

Quanto antes os sintomas forem descobertos, mais eficaz é a recuperação. Segundo dados do Ministério da Saúde do Brasil, alguns sintomas da Síndrome de Burnout são:

  • Cansaço excessivo, físico e mental;
  • Dor de cabeça;
  • Alterações no apetite;
  • Fadiga;
  • Insônia;
  • Problemas gastrointestinais;
  • Negatividade constante
  • Alterações repentinas de humor;
  • Isolamento;

Existe tratamento?

Sim, mas cada caso deve ser avaliado pelo médico em questão. A base do tratamento consiste em psicoterapia. Em casos mais graves, quando há exacerbação dos sintomas ou associação com outros transtornos (como depressão ou ansiedade), medicamentos podem ser acrescidos. O importante é ter acompanhamento adequado de um médico. 

“Pare de trabalhar”

Foi a ordem dada pelo médico de Maria Elisa. De atestado na mão, ela comunicou à chefe que teria que parar para cuidar de sua saúde mental. Os colegas e chefe não foram tão compreensivos, mas sua família lhe deu o suporte que precisava. Ela pediu “por favor, me enfiem no mato” e lá se foram passar uns dias na região serrana do Rio de Janeiro. 

“Eu não conseguia fazer a minha mala, o meu cognitivo ficou alterado. Minha filha foi quem fez a mala para mim. Na viagem, eu andava poucos passos e tinha que parar para sentar”.

Foi assim, aos poucos, que ela foi se recuperando até voltar às atividades um mês depois, contrariando sua psicóloga. Afinal, um mês ainda era muito pouco. E a conta chegou rapidamente. Depois de três meses, ela teve que parar novamente. Os sintomas vieram acrescidos de crises de ansiedade. 

Foi somente quando parou pela segunda vez que Maria Elisa compreendeu a importância de se priorizar. “Todo mundo é substituível, mas a minha saúde não é”, conta a terapeuta.

Em seu livro “Não deixa a vida te maltratar”, o psiquiatra Nélio Tombini fala a respeito de como momentos de infelicidade decorrentes de crises podem criar as situações propícias para mudanças. “A energia nociva que aflige a mente do indivíduo infeliz pode ser transformada em energia positiva para levá-lo à felicidade”, escreve o doutor. 

Foi o que fez Maria Elisa, que tirou três meses para cuidar de si. Fez tratamento com psicólogo e psiquiatra, passou a meditar e fazer atividades físicas e ao fim resolveu pedir as contas para montar o seu próprio consultório, podendo ter mais dias para equilibrar as tarefas profissionais com a família e o lazer.

Como as organizações podem colaborar?

  • Exercícios para diminuir o estresse – meditação, mindfulness, rodas de conversa, e jogos são algumas opções para aliviar a tensão no ambiente de trabalho;
  • Dar espaço para a expressão – muitas vezes os colaboradores desenvolvem transtornos da mente, pois não sentem que têm o espaço adequado para falar dentro da empresa;
  • Identificar funcionários sobre pressão – pedir feedbacks frequentes dos colaboradores acerca da saúde mental deles é uma opção interessante para prevenir o Burnout;
  • Acolher e valorizar cada colaborador – com a glamourização do workaholic é comum que colaboradores se culpem por não atingirem performances de trabalho estratosféricas. É importante olhar com empatia e enfatizar o valor dos talentos de cada trabalhador.

*Nome fictício para preservar a identidade da fonte

A reportagem foi publicada originalmente na 5ª edição da newsletter Tendências. Ainda não é assinante? Conheça nossos planos aqui

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