O complexo amor de mãe e filha de Elena Ferrante

Divulgação/Netflix

A autora italiana Elena Ferrante despontou em 2011 com “A Amiga Genial”, primeiro livro de uma tetralogia onde narra a história de duas amigas que nasceram em um bairro pobre da região de Nápoles.

Há muito mistério em torno da escritora, especialmente pois Ferrante é um pseudônimo e não se sabe sua identidade verdadeira.

"Amiga Genial" (HBO)

Com sua tetralogia, a autora se propõe a uma narração ambiciosa. Através do olhar de duas meninas, ela expõe a condição social e política da região, a violência, pobreza, corrupção. E também os estudos, a beleza da região, a dificuldade de transformar sonhos de criança em realidade da fase adulta.

"Amiga Genial" (HBO)

Porém, no centro da história estão as mulheres e suas complexidades. Autoestima, machismo e ainda sentimentos mais profundos que afetam suas mentes e suas almas são o cerne da literatura da tetralogia. Em meio a questionamentos sobre o que é ser mulher, seu papel na sociedade e suas ambições, está a maternidade.

"Amiga Genial" (HBO)

De forma real e, às vezes, dura, Ferrante questiona o papel de uma boa mãe, a relação entre maternidade, falicidade, desejo, trabalho. O tema é tão irraigado em seu trabalho que se espalha para além da tetralogia. Em “A Vida Mentirosa dos Adultos” ela retoma a ideia da maternidade, dessa vez pelo olhar de uma jovem entrando na adolescência.

Mas talvez seja em “A FIlha Perdida” que o tema tenha papel mais central. Transformado em um filme estrelado por Olivia Colman e dirigido por Maggie Gyllenhaal, o livro se move entre passado e presente para contar a história de duas mães: a jovem Nina e a madura Leda.

"A Filha Perdida" (Netflix)

Vemos ao longo do texto como Leda abriu mão da maternidade para viver a carreira e os amores e, como consequência, é vista como uma “mãe ruim”. Esse rótulo é questionado constantemente na obra de Ferrante. Afinal, o que é uma boa mãe? Alguém que abre mão dos próprios sonhos e desejos para cuidar de uma família?

"A Filha Perdida" (Netflix)

"- Então você voltou por amor às suas filhas? - Não, voltei pelo mesmo motivo que me fez ir embora: por amor a mim mesma." A Filha Perdida

Hoje o tema da “maternidade real” é mais debatido e as mulheres se sentem mais à vontade para compartilhar as dificuldades e o peso que só elas carregam sobre ter um filho. Mas Ferrante vai além e fala sobre arrependimento e como seria a vida sem filhos.

"A Filha Perdida" (Netflix)

Polêmica, mas também real, Elena Ferrante não tem medo de esmiuçar e até estraçalhar os tão conhecidos e muitas vezes desatualizados conceitos de maternidade. Não sem a presença da culpa, mas talvez buscando novas formas de ser mãe.

“A Vida Mentirosa dos Adultos” (Netflix)

“As coisas mais difíceis de falar são aquelas que nós mesmos não conseguimos entender” A Filha Perdida