Edson Aran recria Brás Cubas, Capitu e companhia em diálogo com Drácula  em "Quincas Borba e o Nosferatu"

Redação Culturize-se | Fotos: Divulgação

Há algo de irresistível no gesto de Edson Aran, colunista de humor de Culturize-se, em "Quincas Borba e o Nosferatu": o de aproximar dois universos que, à primeira vista, não teriam qualquer motivo para se tocar — o realismo psicológico e a ironia machadiana, de um lado, e a vertigem noturna da literatura gótica, de outro.

O que poderia soar como um exercício de pastiche ou mero jogo literário, ganha aqui corpo próprio, sustentado por uma maturidade narrativa que o autor já havia ensaiado em "Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira", mas que agora alcança outro patamar.

A costura proposta por Aran é menos um choque e mais uma revelação de afinidades ocultas. Ao trazer Drácula para o coração do Brasil Império, o escritor não apenas desloca o vampiro de seu cenário europeu, mas o insere num ambiente em que a crônica social de Machado — marcada pela dissimulação, pela ambiguidade e pelo jogo de aparências — se torna ainda mais perturbadora à luz do sobrenatural.

O romance se diverte com esse trânsito entre registros. Entre a sátira social e o horror epistolar, Aran constrói um jogo de espelhos em que as convenções de gênero se embaralham, ora gerando humor, ora suspense, ora crítica velada.

"Quincas Borba e o Nosferatu" sugere que Machado de Assis e Bram Stoker, cada um a seu modo, lidaram com os fantasmas do século XIX: a instabilidade dos afetos, a ameaça das paixões desmedidas, a corrosão das instituições.

Ao unir essas vozes, Aran não apenas presta homenagem, mas também comenta o presente, lembrando que nossos vampiros — políticos, sociais ou íntimos — continuam à espreita.